terça-feira, 10 de janeiro de 2012

21 gramas

Por Caio Lafayette

Acordou em uma sexta-feira normal.

Um banho pra começar bem o dia e um cigarro pra saciar o vício.

Como de costume, saiu de casa para ir à padaria da praça central comprar pães fresquinhos para o café da manhã.

Era uma sexta-feira normal, mas algo lhe chamou a atenção: o salão utilizado para velórios importantes da cidade estava ‘otado. Pensou que ir até lá era papel de curioso, coisa que não combinava muito com sua personalidade. Mas a movimentação era intensa. Decidiu chegar mais perto, afinal, poderia ser algum conhecido.


Ao se aproximar avistou o vizinho evangélico que o acordava aos domingos cedo com músicas de louvor em alto volume. A preocupação começou a bater. Por se tratar de um bicão – não foi avisado da morte de ninguém – decidiu que não falaria com o conhecido.

A proximidade foi aumentando e a preocupação idem. Viu um grupo de homens e mulheres se lamentado e reconheceu-os: eram seus parceiros de redação, no Jornal da cidade. 

Permaneceu calado, mantendo o máximo de discrição possível.

Quem será o ‘defunto’? – passou a se perguntar.

E quanto mais olhava ao redor, mais pessoas que conhecia eram avistadas. Nesse momento passou a refletir sobre a morte e, em meio a tantos conhecidos, lamentou o fato de morrer significar não estar nunca mais com os amigos.

A saga continuou. Mais adiante, o português da padaria queixava-se, ao pé de ouvido com a esposa, que o defunto bateu as botas deixando uma dívida gigante em seu estabelecimento. Em primeira instância, acreditou que aquele que descansava no caixão poderia até ser má pessoa, mas logo se contentou com a ideia de que ninguém é unanimidade.

O clima do velório parecia tenso, porém, estranhamente não o incomodava – logo ele, que sempre detestou esse tipo de reunião.

Percebeu que, talvez, aquela ida à padaria pudesse demorar mais do que o previsto. 

Mantendo a discrição, pegou um cafezinho e continuou a caminhar. O salão era grande e só era utilizado quando pessoas muito queridas faleciam. Isso o fez pensar se, quando morresse, seria velado no local. Chegou a conclusão que não. Apesar de ser o jornalista mais famoso da cidade, era odiado por autoridades e grandes empresários por sempre divulgar denúncias e notícias que não convinham a estes. Curiosamente, as autoridades e os grandes empresários também estavam no velório.

O caixão ia se aproximando e muitas pessoas chorando não podiam, nem mesmo, ser identificadas. Geralmente desconsoladas em ombros alheios ou desmaiando, davam ao evento ar de dramaticidade.

Enfim, chegou próximo ao corpo. Fez o sinal da cruz e preferiu, num primeiro momento, não olhar. Mas o que fazia ali senão descobrir quem passou dessa para a melhor? Não resistiu e olhou.

Para sua surpresa, viu seu próprio corpo ali, estendido no caixão. Esfregou os olhos, pois não acreditava naquilo. Olhou novamente. E sim, era ele! Morto, sendo velado no salão principal da cidade, com a presença de autoridades, grandes empresários, amigos de trabalho, português da padaria e até do ‘filhadaputa’ do vizinho evangélico.

Pensou em se desesperar. Olhou a sua volta mais uma vez, e outra para o caixão. Lembrou de seus planos, seus amigos e seus amores. Quis não crer. Preferiu esquecer de acreditar. 

Saiu do salão e caminhou lentamente de volta à sua casa. Ao chegar, acendeu um cigarro e percebeu que aquela sexta-feira não era mais tão normal assim: ele esqueceu dos pães fresquinhos.
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