sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Aprende depressa a chamar-te de realidade...

O MONUMENTO
Por Caio Lafayette


Chegou em casa e avisou à mulher:
-Faça as malas! Vamos nos mudar para São Paulo!
A notícia não foi recebida muito bem. De onde ele tirou essa ideia? E minha mãe? E a escola das crianças? O que vamos fazer tão longe? Já sei! Ele arrumou ‘outra’ nessa última viagem. Canalha!
-Peraí. Vamos com calma. Como você decide algo assim, tão importante, sem pedir minha opinião?
-Eu decidi. Preciso morar perto do ‘monumento’.
-’Monumento’? Mas que ‘monumento’? – respondeu a mulher, acreditando cada vez mais na possibilidade de ter sido traída. E pior: a ‘outra’ ser o tal ‘monumento’.
-Eu vi, amor. Era alto, cheio de luzes.
-Era só o que me faltava. Você não tem mais idade pra acreditar em disco voador!
-Não. É bem mais bonito que um disco voador. Você vai ver. Já escolhi um apartamento. Está tudo certo. Só precisamos arrumar as malas.
-Como tudo certo? E as crianças?
-Vão com a gente. Aposto que o Teco vai ficar ‘boquiaberto’ com o ‘monumento’.

***

Mesmo contrariada ela decidiu fazer as malas. Lembrou de todo o esforço que o marido fez durante todos esses anos pra dar as melhores condições de vida a ela e aos filhos, sempre sem reclamar. Por que não realizar um desejo dele agora?
-Você vai ver. Da janela do apartamento poderemos passar horas observando o ‘monumento’.


***

Cidade de São Paulo, Santa Cecília, já era noite.
-Gente, venham ver, venham ver, o ‘monumento’!
Numa mistura de espanto, alegria e realização, os olhos dele brilhavam. Realmente haviam luzes, muitas, aliás, hora passando pra lá e pra cá, hora paradas.
-Mas isso não é uma avenida?
-Não. Um amigo meu me falou que a chamam de ‘Minhocão’. Imagina só quanta história tem por trás disso?
É…melhor não discutir.

***

A partir daquela noite o marido só saía da janela depois das 10h da noite, quando, num ‘passe de mágica’, o ‘monumento’ ia se apagando e, na cabeça daquele nobre homem, repousava então a São Paulo que nunca para.
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