terça-feira, 8 de maio de 2012

Café com conhaque

Por Caio Lafayette


Em um tradicional café da cidade ela o aguardava.

Livro aberto e apoiado na mesa. ‘Não leve a vida tão a sério’, típica literatura de auto-ajuda, que nunca foi a preferida dela, mas não custava tentar. Há algum tempo buscava alternativas para, se não esquecer, ao menos confortar-se com seu passado. Terapia, amigos, balada. Parece que nada dava certo. Apelou pra auto-ajuda mesmo.

Vestia-se em um elegante sobretudo bege e uma boina preta, muito bem protegida do frio incomum que assolava a cidade de São Paulo em pleno Fevereiro.

Especialista em café’s, tinha marcado naquele local por adorar o Machiatto – nada mais que um café expresso com espuma de leite. Ele não era fã. Sempre preferiu conhaque. Tinha, aliás, em sua kitchenet na Zona Sul uma coleção deles. Dividia os 30m² com uma cama, uma TV velha e sua coleção de conhaques.

Bem menos elegante que ela, ele estava atrasado. O terno barato e mal passado só era o traje por ser obrigado a usá-lo em seu serviço. Se pudesse escolher estaria de calça jeans e blusa de moletom. Não teve escolha. Nem do traje, nem do transporte. O Metrô atrasava ainda mais o encontro. À medida que o tempo passava, a impaciência aumentava. E pior era pensar que ela poderia desistir, pagar seu Machiatto e ir embora. Será?

Já se passavam 20 minutos do horário combinado, mas ela parecia estar tranquila. Saboreava seu café, buscava ajuda na literatura e protegia-se do frio. Pensou em mandar um SMS para saber onde ele estava. Preferiu não. Voltou a se concentrar no livro.

Ele entrou e ela estava ali, onde haviam combinado. Pode parecer óbvio, mas 40 minutos depois do horário marcado já não seria nenhuma surpresa se ela tivesse desistido e deixado o local. Mas não deixou.



Aproximou-se sem ela notar. Não se tratava de nada premeditado, ela apenas estava distraída com sua leitura.

- Espero que não leve a sério meu atraso... – ele sorriu.

- Oiii! Nem vi você chegar. Estava mesmo distraída com a leitura. – sorriu ela, também.

- Percebi. E brincadeiras a parte, me desculpe pelo a...

- Não precisa se desculpar! – interrompeu ela.

Após alguns segundos de silêncio, o garçom apareceu.

- Mais um Machiatto pra mim, por favor. E pra você?

- Traz um igual.

-Mas não é você que não gosta de café?

-Vou abrir uma exceção hoje...

Sorriram juntos e começaram a conversar. Sobre o livro que ela lia, sobre o Metrô que sempre atrasa, sobre o café que não chegava.

A verdade é que nenhum dos dois estava preparado para aquele encontro. Ela, como já foi dito, ainda em processo de aceitação do seu passado. Tinha saído de um longo relacionamento há poucos meses e ainda se sentia culpada pelo término. Não sabia porquê tinha ido encontrá-lo. Ele não tinha saído de relacionamento nenhum. Aliás, não entrava em um há mais de 5 anos. E se sentia confortável assim. Morria de medo de se apaixonar de novo e esse encontro era um grande passo pra isso acontecer. Em suma, não sabia porquê tinha ido encontrá-la.

O café chegou. Quente.

E a conversa continuava, fria. Era um primeiro encontro e ambos não ultrapassavam os limites do convencional. Ao menos, não com palavras. Na cabeça dos dois a coisa não era tão fria. O café quente talvez fosse o melhor retrato da imaginação naquele momento. Mas ainda era só imaginação.

Em meio a fria conversa encontravam muitas coisas em comum. Músicas, livros, lugares.

Ele resolveu ousar. Desistiu rápido. Talvez por medo de assustá-la. Talvez por medo dela aceitar. Não importa.


Por conta do atraso, o tempo que tinham disponível ficou curto. Hora de ir.

Ele pensou em convidá-lo para uma experimentação de conhaque. Guardou a ideia consigo. Ela pensou em convidá-lo para andar de bicicleta no parque. Só pensou.


- Então é isso, a gente se fala. – ele falou, quase lamentando.

- É, a gente se fala. – ela falou, lamentando.

Cada um pro seu lado. Ele, Sul. Ela, Norte.

Minutos depois, os telefones apitaram ao mesmo tempo. Quase como em uma transmissão de pensamentos, ambos enviaram o mesmo SMS:

“Vou ficar pensando em você.”

Sorriram. Ele, a caminho do Sul. Ela, a caminho do Norte.

Ele decidiu ligar.

- Então... pensei em te chamar pra ir ao parque Domingo, andar de bicicleta. Sei que você gosta...

- Ia te ligar agora mesmo. Vi na internet que Domingo tem um evento de degustação de conhaque em Moema. Sei que você gosta...

Marcaram de se encontrar Domingo. E tiveram a certeza de que, até lá, não parariam de pensar um no outro.

Um comentário:

  1. Po, muito legal a cronica! O interessante é que agora que fui a São Paulo, consigo ambientar muito bem esse tipo texto! Consegui ver os lugares e imaginar tudo mesmo sem voce entrar em detalhes. Muito bacana mesmo! Abraço

    ResponderExcluir