sexta-feira, 4 de maio de 2012

Juízo

Texto de Caio Lafayette e ilustração de Luiz Carlos Bergamasco


'Matrona' - por Luiz Carlos Bergamasco

Juízo às vezes passa longe dele. Conhece mais pelas palavras de sua mãe quando pequeno do pelo seu significado de fato. Mas também não é um monstro, um brucutu.

Certa ocasião estava a namorar uma garota linda, meiga, cheirosa e de família - seja lá o que signifique isso hoje em dia. Moça pra casar. Mas veio uma festa do priminho dela e um rabo-de-saia o fez mudar o rumo das coisas. Nada de tão catastrófico se o rabo-de-saia em questão não fosse a prima da moça. Resultado: pela primeira vez foi taxado de sem juízo.

O romance acabou, mas a vida continuou. Ele tinha plena consciência de que não fez por mal. E confessou não entender o motivo pelo qual foi chamado de sem juízo. Lembrou que sua mãe o taxava da mesma coisa quando pirralho. Ficou com a sensação de que as pessoas mais velhas usam essa expressão para designar atitudes que elas não entendem.

Um pouco mais pra frente, já recuperado da festa passada, engatou um ‘affaire’ com uma menina de longe. Bem longe. Ia visitá-la aos finais de semana e voltava na segunda-feira direto para o trabalho. Mas parece que as coisas não davam certo pra ele. Dividido entre sua namoradinha e sua liberdade, no momento crucial do relacionamento – o noivado – largou tudo e preferiu ir com os amigos para uma casa de diversão masculina. A moça havia reservado mesas no melhor restaurante da cidade longínqua e convidado toda a família. Ligava desesperada para um celular que só caía na caixa-postal. Ele não deu notícia. E quando resolveu fazer isso, estava tão bêbado que não conseguia explicar onde estava e o porquê de não ter ido ao jantar tão esperado. Resultado: todos o taxaram de sem juízo pela segunda vez.


Apesar de tudo, era um moço esperto. Tentou achar relação entre as duas vezes em que fora considerado um sem juízo e a única coincidência encontrada foi que, em ambas as situações, ele agiu de acordo com a sua vontade momentânea. Isso o fez pensar que juízo podia ser, então, não fazer aquilo que se tem vontade.

Decidiu dar um tempo em seus relacionamentos. Mais do que isso. Decidiu dar um tempo de tudo e todos. Juntou dinheiro por alguns meses. Comprou uma passagem de ida para a Austrália. E se foi. O chefe ficou esperando, pois tinha uma reunião importantíssima para os rumos da empresa previamente marcada. O amigo ficou no bar, esperando, pois tinha brigado com a namorada e precisava de alguém com quem desabafar. O português da padaria ficou esperando para receber o dinheiro que lhe era devido. A sua mãe também ficou esperando, com o almoço fresquinho servido na mesa. E pela terceira vez, foi taxado de sem juízo. Por todos.

Com a cabeça mais fria ele voltou. E ainda não sabia o que podia ser aquele tal juízo. Será que era não deixar as pessoas esperando? Talvez…

Quando chegou, poucos o receberam de braços abertos e esse talvez tenha sido o principal motivo para que ele tenha A conhecido. ELA estava lá, na casa de shows, assim como ele. Tudo foi muito rápido. Trocaram olhares, se beijaram selvagemente e terminaram a noite no Motel. Cada um pro seu lado, apenas o número de telefone trocado. Mas os dias pareciam se arrastar e a vontade de tÊ-LA novamente era insaciável. ELA não era um exemplo de mulher segundo os condicionamentos criados pela sociedade. Fumava, bebia e falava palavrão. Mas era ELA. Acabou não resistindo e ligou pra ELA. A voz doce daquELA moça o fazia sentir-se flutuando. Combinaram de se encontrar sábado novamente. Coincidência ou não, seus amigos o chamaram, no decorrer da semana, para ir à casa de diversão masculina no sábado. Ele não aceitou o convite. Aquela prima da moça de família que acabou com seu primeiro relacionamento o convidou para uma noite a dois, no mesmo sábado. Ele também recusou. Naquele momento, só conseguia pensar nELA. Talvez então fosse isso: ELA era o juízo.
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