segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sai Sarkozy, entra Hollande

Reportagens retiradas do jornal O ESTADO DE SÃO PAULO para tratar do principal assunto do final de semana.


O EX-PRESIDENTE, NICOLAS SARKOZY

Derrotado nas eleições de domingo, Nicolas Sarkozy deixa a Presidência da França sem conseguir se distanciar da imagem de playboy que adotou no começo do mandato, que acabou desagradando igualmente partes da direita e da esquerda francesas.

Ele foi eleito prometendo uma "ruptura" com o estilo tradicional de um presidente na França. Essa "nova" imagem foi marcada inicialmente pelas férias em um iate de um grande empresário, pelo seu gosto notório por coisas luxuosas e pela exposição de sua vida pessoal em revistas de celebridades no início de seu mandato.

Mas a maior "ruptura" prometida ocorreu na forma como ele exerceu o poder: Sarkozy foi onipresente na vida política, acumulando as funções de chefe de Estado e atribuições de primeiro-ministro, o que lhe valeu o apelido de "hiperpresidente" e o fez ser comparado inúmeras vezes a Napoleão Bonaparte.

"Sarkozy exerceu a função presidencial de maneira inédita na França", diz o cientista político Stéphane Montclaire, da Universidade Sorbonne.

"O presidente francês é responsável pela política internacional e pela defesa. Ele deixa o restante para os ministros. Sarkozy achou que os franceses se acomodariam com (seu estilo de governar), mas a transição foi muito rápida. Foi um erro fatal", diz Montclaire.

Talvez por essa razão o primeiro-ministro, François Fillon, registre até hoje um índice de popularidade maior do que o do presidente.

"Sarkozy vai entrar para a história como o exemplo a não ser seguido", afirma o especialista.

Presidente dos ricos

Sarkozy celebrou sua vitória em 2007 no luxuoso restaurante Fouquet's, na Champs-Elysées, sob o olhar das câmeras de TV do mundo todo. O local acabou se tornando, ao longo de seu mandato, o símbolo dos "presidente dos ricos", como vinha sendo chamado por seus opositores.

Ele foi o primeiro presidente a se casar novamente - com a top model e cantora Carla Bruni - após um divórcio e o primeiro a se tornar pai durante o exercício da função.

Foi também pioneiro ao entrar no Palácio do Eliseu usando shorts e tênis após uma corrida, ao insultar um cidadão comum em um evento com frases vulgares e ao nomear personalidades da oposição para cargos de governo, o que provocou críticas em seu próprio campo.

Seu estilo tempestuoso desagradou parte do eleitorado tradicional da própria direita francesa, para quem esse tipo de comportamento não corresponde à imagem de um chefe de Estado.

A oposição se aproveitou disso e usou a imagem de Sarkozy como munição. Durante a campanha, o candidato socialista François Hollande prometeu que seria um "presidente normal".

Francês como os outros

Derrotado, Sarkozy, disse que voltará "a ser um francês como os outros", o que deverá ser um desafio a partir de 15 de maio, quando deixará o cargo, para um homem que certamente não agiu como um francês "como os outros".

Sarkozy obteve recordes que preferia não ter obtido: foi o presidente com o mais baixo índice de popularidade da chamada 5ª República, que começou com o general Charles de Gaulle em 1958, e foi o primeiro chefe de Estado a não liderar o primeiro turno de uma eleição presidencial.

Mas se no campo interno Sarkozy foi alvo de críticas, sua atuação internacional, como nos conflitos na Geórgia (2008) ou na Líbia e na crise na zona do euro, foi elogiada.

Sarkozy foi um dos líderes europeus mais em evidência na mídia internacional dos últimos tempos.

Apesar de sua baixa popularidade, sua derrota não foi esmagadora. Ele recebeu 48,38% dos votos, segundo o Ministério do Interior, resultado melhor do que o apontado nas pequisas eleitorais.

Sarkozy havia prometido deixar a vida política em caso de derrota.

No discurso aos militantes de seu partido, na noite de domingo, ele foi, no entanto, vago a respeito de seu futuro.
Mas, segundo a imprensa francesa, Sarkozy teria dito à sua equipe que encerrá suas funções políticas e não irá conduzir o partido às eleições legislativas, em junho. 




O NOVO PRESIDENTE, FRANÇOIS HOLLANDE

A primeira coisa que François Hollande, o "Sr. Normal", planeja fazer ao se tornar o primeiro socialista a governar a França em 17 anos será reduzir o próprio salário em 30 por cento.

Uma coisa que ele promete não fazer é promover nacionalizações e gastos públicos desenfreados, como fez o último presidente socialista da França, François Mitterrand, no começo do seu governo (1981-95).

Hollande, de 57 anos, é um político moderado de centro-esquerda, cuja campanha se baseou no compromisso de eliminar o déficit público da França até 2017, elevando impostos, principalmente dos ricos, para financiar gastos públicos prioritários em áreas como a educação.

Tal posição é criticada por muitos economistas que argumentam que a França deveria cortar profundamente os gastos públicos e reduzir o papel do Estado para confrontar a dívida pública, estimular a economia e tornar o país internacionalmente mais competitivo.

Mas Hollande argumenta que medidas de austeridade como as recentemente adotadas pela Grécia seriam um tiro no pé, por reduzir a atividade econômica e, consequentemente, a arrecadação tributária, o que acaba elevando o déficit ao invés de reduzi-lo.

Para além das políticas econômicas que são cruciais na atual eleição, Hollande tem uma agenda política típica da centro-esquerda moderna: ele promete autorizar o casamento entre homossexuais, permitir a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, e legalizar a eutanásia sob rígidas condições. E diz que não tem a intenção de se casar de papel passado com sua companheira.

Ele se define como o "Sr. Normal" que o país precisa após cinco anos de governo de Nicolas Sarkozy, um político com momentos de narcisismo e fanfarronice, o que lhe rendeu o apelido de "presidente brilhareco".

Hollande costumava ir trabalhar de motoneta até que os compromissos da campanha e as regras de segurança o obrigaram a aposentar seu modesto meio de transporte. Até recentemente, ele era mais conhecido internacionalmente por ser o ex-companheiro de Ségolène Royal, a fotogênica política socialista com quem ele teve quatro filhos e que foi candidata derrotada à Presidência em 2007. O casal se separou após a campanha.

Sua atual parceira, a jornalista Valerie Trierweiler, diz que pretende continuar trabalhando, mesmo se Hollande for eleito, para ajudar a sustentar os três filhos dela de um casamento anterior.

Seriedade

Hollande tem uma verve afiada. Até a ex-primeira-dama Bernadette Chirac, que lhe faz oposição como deputada no Conselho Geral (assembleia deliberativa) do Departamento da Corrèze, presidido por Hollande, admitiu certa vez: "Ele é muito engraçado. Ele sabe trabalhar uma multidão, um mercado, uma feira, uma Câmara de Vereadores".

Sua natural jovialidade ficou em segundo plano, mas sem desaparecer, no momento em que ele busca transmitir a seriedade de um estadista. Ele nunca foi ministro, e sua carreira foi toda traçada na política regional e dentro do Partido Socialista.

Depois de atuar à sombra durante os dois mandatos presidenciais de Mitterrand, ele unificou o partido no turbulento período de dez anos em que serviu como primeiro-secretário (1997-2007).

Críticos o acusam de ser inexperiente, insosso e indeciso. Humoristas o apelidaram de "Flanby", em alusão a um pudim industrializado. Apoiadores dizem que seu ponto forte é a capacidade de formar consensos.

Hollande emagreceu e melhorou o visual para disputar a eleição. Fez uma dieta-relâmpago que o privou de uma das suas grandes paixões, o bolo de chocolate, e trocou os óculos tipo fundo de garrafa por modelos mais modernos, sem armação.

Nascido a 12 de agosto de 1954 em uma família de classe média de Ruão (noroeste), Hollande é filho de um médico e de uma assistente social. Desde jovem, dizia a parentes e amigos que gostaria de um dia ser presidente.

Após se mudar para a região de Paris em 1968, ele frequentou a conceituada escola de gestão HEC, e se formou no final da década de 1970 pela Escola Nacional de Administração, que prepara gestores públicos e por onde grande parte da elite política francesa passa.

De lá, começou uma carreira política como assessor de Mitterrand em 1981, junto com Royal.

Outra coisa que ele promete fazer imediatamente depois de ganhar a eleição é telefonar para dar a notícia ao seu pai idoso, que atuou politicamente junto à extrema direita na década de 1960, por discordar do processo de independência da Argélia, então colônia francesa.
Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário:

Postar um comentário