terça-feira, 12 de junho de 2012

Santa Chuva

No dia dos namorados, para a minha namorada.



"Vai chover de novo,

deu na tv que o povo já se cansou de tanto o céu desabar.

E pede a um santo daqui que reza a ajuda de Deus, 
mas nada pode fazer se a chuva quer é trazer você pra mim."



SANTA CHUVA
Por Caio Lafayette

Sempre quando a chuva batia em sua janela, ele não colocava os pés pra fora de casa. Questão de tradição. Como todas as tradições, não sabia bem de onde ela havia surgido. Mas o fato é que não saía de casa.


Costumava, em dias chuvosos, colocar seus compromissos domésticos em dia. Lavava, passava e cozinhava. Aliás, cozinhar era a parte que mais o irritava. Acostumado a lanches e comidas prontas, nesses dias tinha que ‘se virar’.

Quando a chuva demorava a passar, a ponto de concluir os serviços domésticos, lia um livro. Ele não lê qualquer livro. Tem autores favoritos e temas que lhe interessam. Isso se tornava um problema quando não achava algo que o interessasse. Sair pra comprar no sebo mais próximo? Nem pensar! O que os amigos iriam achar caso saísse na chuva?

Nessas condições, geralmente recorria ao computador. Tinha essa como última opção. Sempre achou a vida virtual uma farsa e que as relações deveriam se dar pessoalmente. Mas estava chovendo…

Como já puderam perceber, sempre quando a chuva batia em sua janela, ele não colocava os pés pra fora de casa. E acordou em pleno feriado de 7 de Setembro com a chuva batendo em sua janela.

Mas aquele 7 de Setembro tinha algo especial – ou será que algo especial acontecia dentro dele?.

A chuva, que batia em sua janela, foi se tornando tempestade. O sopro do vento e o barulho das águas que caíam do céu começaram a soar como uma bela canção.

– Por que não enfrentar a chuva? – passou a se perguntar.
– Tradição? Isso não é motivo o suficiente.
- Vergonha dos amigos? Ou serão as dificuldades que a chuva pode causar?

A dúvida, que repentinamente assolou sua cabeça, começou a encorajá-lo.

Tentou esquecer de tudo aquilo e ir lavar, passar ou até mesmo cozinha. A vontade de sair na chuva não deixava. Foi até a estante, mas nenhum livro lhe interessou – mesmo eles sendo dos seus autores favoritos. O computador, seu último alvo, não funcionava – não tinha energia elétrica.

Tudo parecia conspirar em favor daquela sua incerteza. Pensou, então, no mar, que mesmo com chuva e vento sempre se fortalece ainda mais, enfrenta-os, nunca se esconde.
Num momento parecia decidido. N’outro não.

Minutos depois de toda essa confusão, aquele 7 de Setembro mostrou que tinha algo de especial – ou será que algo especial acontecia dentro dele?.

Enfrentando tradição, dúvidas e incertezas, ele se entregou à tempestade.




"Vem cá que tá me dando uma vontade de chorar

Não faz assim, não vá pra lá, 

meu coração vai se entregar à tempestade."

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