segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Os recados das urnas


Por Caio Lafayette 

Chegou ao fim mais um processo eleitoral em nosso país. Mais uma vez, de maneira exemplar, como tem sido há alguns anos e, principalmente, desde a adoção da moderna urna eletrônica, que facilita não só o voto em si, mas também a apuração desses. Vale destacar, por exemplo, que em Curitiba, às 17h30m, pouco depois do encerramento das votações, já tínhamos quase 80% dos votos apurados – incrível e inimaginável há alguns anos atrás.

Mas não é só a urna eletrônica que merece destaque. Com a democracia cada dia mais enraizada nos costumes e ideários de nossa população, as eleições municipais vão sendo ainda mais importantes para o cenário das eleições por vir daqui a dois anos – quando escolheremos nossos representantes estaduais e federais.

E, nesse sentido, farei algumas observações, que nada mais são do que percepções e sentimentos meus. Percepções a nível nacional, na maioria dos casos. Reservarei um novo post pra falar do Estado de São Paulo, em específico e, por fim, outro pra destrinchar um pouco mais os resultados do partido do qual faço parte, o PSDB.


  • O NOVO LÍDER: EDUARDO CAMPOS 




O principal destaque da eleição de 2012 foi o PSB. Na verdade, o PSB e o seu Presidente Nacional, Eduardo Campos, Governador de Pernambuco. Se ainda existia alguma dúvida do potencial de Campos, as urnas comprovaram que no Nordeste, onde ele coloca a ‘cara’ é quase imbatível. Isso, inclusive, considerando o carisma de Lula, que perdeu TODAS que disputou com o Governador Pernambucano. O exemplo mais claro foi Recife, onde o candidato do ex-Presidente começou a campanha tendo larga vantagem e, no fim, ficou em 3º, vendo o candidato do PSB levar a disputa ainda no 1º turno. Mas não é só no Nordeste que o PSB cresceu. Manteve Belo Horizonte e ganhou em Campinas, expandindo sua força para a região Sudeste. Aumentou em quase 50% o número de prefeitos em todo o Brasil e governará, a partir de 2013, mais de 15 milhões de eleitores brasileiros. Considerando os resultados obtidos, o PSB, e Campos, devem ter papel principal na eleição de 2014, e não mais de coadjuvante. 


  • O MITO LULA CAI, MAS NÃO MORRE 




Na primeira eleição fora da cadeira de Presidente da República, Lula se colocou como ‘guru’ do PT. Mandou e desmandou. Foi o articulador político do partido nas principais cidades. Brigou para fazer suas vontades. Perdeu em quase tudo. Quase. Em Recife, por exemplo, negou a candidatura de reeleição do candidato do PT para colocar Humberto Campos. O tiro saiu pela culatra. Em Belo Horizonte também perdeu, depois de forte campanha. Em Salvador viu um dos principais nomes da oposição, ACM Neto, vencer o candidato do PT. Em todos os lugares que concorreu com Eduardo Campos e seu PSB, perdeu. Campinas e Fortaleza são mais dois exemplos. No Nordeste, que sempre foi ‘Lula’, o PT ‘diminuiu’. A exceção dessa série de derrotas foi a maior cidade do país, São Paulo. Isso equilibra, de certa maneira, seus resultados. O seu novo ‘poste’ Fernando Haddad venceu, mas mais graças à rejeição de seu adversário, José Serra, do que propriamente pela reversão de votos de Lula. A olho nu pode até parecer que não, mas o ex-Presidente sai menor do que entrou nessa eleição. 


  • PSD É FORTE OU NÃO? 


O estreante em eleições PSD conseguiu se firmar como um partido importante no cenário nacional. É o 4º colocado em número de Prefeituras, apesar de ser apenas o 6º em número de eleitores que governará. Ganhou muito, mas em poucas grandes cidades. Isso não desmerece o poder de articulação de seu Presidente Nacional Gilberto Kassab. A partir de agora o PSD deve caminhar em direção a um alinhamento com o Governo Federal, o que já era esperado – e se desenhou de alguma maneira já em 2012, basta ver as alianças PT-PSB em todo o país. Mas ainda vale esperar 2014 pra fazer um diagnóstico mais profundo dos caminhos do partido. Será traumático para várias de suas lideranças a escolha entre Governo Federal e Governo do Estado de São Paulo nas próximas eleições. Muita gente sairá ‘ferida’ dessa escolha. E resta saber, também, qual será o projeto de Kassab, que deixa o poder da maior cidade do país, São Paulo, com taxa de reprovação recorde.

  • ACM NETO E A OPOSIÇÃO 



A vitória de ACM Neto em Salvador é muito mais emblemática do que a volta do ‘carlismo’ no cenário político nacional. O ‘baixinho’ ACM Neto é, há algum tempo, um dos mais firmes opositores dos governos Lula-Dilma em Brasília. Muitas vezes, até, considerado um ‘destemperado’ pela base aliada. Disputou a eleição em Salvador contra um candidato do PT, que teve apoio do Governo Federal e também Estadual – via Governados Jacques Wagner, também do PT. A vitória em Salvador é um grito de resistência da oposição e, até uma lição de como fazer oposição. Curiosamente, Artur Virgílio, outra figura de atuação firme contra o Governo Federal, também venceu, em Manaus. O recado talvez seja que há espaço para se fazer oposição firme, coerente, mas firme. E, principalmente, que essa oposição está em falta, pois o PSDB, salvo raras exceções, não consegue cumprir esse papel que lhe cabia no cenário nacional.
  • HOMENS NOVOS PARA TEMPOS NOVOS 



Acho, porém, que o maior recado das urnas é o sentimento de mudança que os eleitores mostraram. O índice de reeleição e de sucessores eleitos foi o menor desde 1998. São Paulo, talvez, seja o exemplo mais emblemático, onde Fernando Haddad, um neófito em eleições, venceu experiente José Serra, ex-Senador, Prefeito e Governador. Mas essa tendência foi clara em todo o país. Recife, Curitiba e Salvador são mais alguns exemplos, para ficar apenas em grandes capitais. O Mensalão fez efeito – talvez não o que a oposição esperava. Não foi o PT o maior derrotado com as condenações do Mensalão, mas a classe política que representa a maneira antiga de fazer campanha e governar. O perfil técnico, a exemplo do explorado por Dilma em 2010, venceu o perfil político.


2014 começa agora. 
Vejamos quem saberá analisar melhor os número e tendências mostrados em 2012. E, principalmente, quem se aproximará mais daquilo que o eleitor quer. Esse é o grande desafio.
Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário:

Postar um comentário