quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um abraço, Um resumo

Por Caio Lafayette


E então se abraçaram...

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Num mundo cujas características culturais atuais presam pela exposição da bunda e do peito, em que o sexo se distancia cada vez mais do amor, em que as poesias mais recitadas estão nas letras de funk e a literatura mais vendida é erótica, um abraço pode parecer pouca coisa. Mas se abraçaram e a história acaba aqui.



*** 

Ele estava ansioso pelo show. Há alguns meses havia comprado o ingresso. E sabia que ela estaria lá, o que tornava o evento ainda mais nobre, na cabeça dele.

Ela também estava ansiosa, do outro lado da cidade. Menos pelo fato de saber que ele estaria lá do que pelo show em si, de sua banda preferida. Ela, pra falar a verdade, preferia não ter que vê-lo. Ele mexia com ela de uma maneira especial, diferente de qualquer coisa que já havia sentido – e tudo que é fora do comum assusta o ser humano. Não queria dividir sua atenção entre o show e ele. Iria se perder com um dos dois.

Ele saiu mais cedo de casa. Pensou em ligar pra ela, como quem não quisesse nada, e dizer:

- Já chegou? Corre porque está ficando cheio!

Mas lembrou que o show era com lugar marcado.

Ela demorou um pouco mais. Um pouco não, bem mais do que o previsto, aliás. A maquiagem nunca estava a contento e a roupa nunca combinava com o sapato. Pensou em deixar o celular em casa pra não perdê-lo – ou seria por medo dele ligar?

Ele entrou e encontrou a mesa na qual assistiria ao show. Talvez fosse a mesa na qual buscaria o melhor ângulo para ficar observando o que mais lhe interessava naquela noite – e não era necessariamente o show.

Ela entrou sem olhar para o lado. Encontrou sua mesa. Fixou o olhar no palco, ainda vazio.

*** 



Na última vez que se viram o clima foi tenso.

Ela não podia, mas queria. Ele podia e queria. 
Ela o manteve numa distância segura. 

- Você vai me deixar ir embora assim, sem ao menos um beijo? 
- Para! Eu não posso. Não faz isso comigo... não me confunda ainda mais. 

Ela tremia, da cabeça aos pés. Ele se preocupou. 

- Tá tudo bem? 

- Não! Não tá tudo bem. Você não vê o que faz comigo? 

Ele riu. 

- Então por que... 
- Eu vou entrar, não tô me sentindo bem. Me desculpa? – disse ela, interrompendo-o e evitando mais questionamentos. 
- Você que sabe... – ele lamentou. 

Na verdade, ela não sabia. Ele fez cara de quem não desculparia. Ela entrou, mesmo assim.

*** 

Ele a viu. Pensou em levantar e ir cumprimentá-la. Pensou em ir buscar uma bebida e, sem querer, esbarrar nela. Ou seria melhor um SMS apenas avisando: ‘estou três mesas à sua esquerda. Bom show!’? Na verdade, o melhor era começar a olhar pro palco, o show estava começando.

*** 

Ela não resistiu. Procurou-o com o olhar, na segunda música. Cruzaram olhares pela primeira vez na noite. Ela deixou o copo que estava em sua mão cair. Ele levantou e foi ao banheiro se recompor.

Passaram todo o show se olhando. Fazia parte do jogo. Ainda era difícil para os dois relevar o último encontro, se fingir de amigos e cumprimentar-se com um beijinho no rosto e nada mais.

Na última música a banda pediu pra todos ficarem de pé e irem pra frente do palco. Era a hora certa para ambos se perderam no meio da multidão, deixarem pra lá o desconforto e curtirem a última música do show que tanto esperavam, cada um consigo próprio.

Não foi o que aconteceu.

*** 

Ele levantou primeiro, olhou pra ela, quase que a chamando, virou as costas e se misturou aos tantos fãs presentes. Ela hesitou. Mas não teimou quando a banda fez o segundo chamado. Levantou e se misturou ao animado público. 

Quis o destino – ou será que foram eles? – que já no refrão estivessem lado a lado. Não ouviam mais nada, não viam mais ninguém. Apenas se olhavam. Ela tremia, mais uma vez. Não sabia como vê-lo e não tremer. Ele não sabia como vê-la e não desejá-la. Ela ameaçou falar. Ele fez sinal de silêncio, com o dedo indicador erguido em frente a sua boca. 

E então se abraçaram...

*** 

E depois?

Bom, isso não importa. E nada mais importa depois desse abraço. Apenas se abraçaram e a história acaba aqui.
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