quarta-feira, 24 de abril de 2013

Sétimo andar

Por Caio Lafayette


Pelo vitrô da cozinha ele observa.

Já fora indagado mais de uma vez o por quê daquela mania. ‘Estou olhando a cidade’, sempre respondia.

Alto, ali, do sétimo andar, a vista de toda a pequena cidade é realmente propícia. A avenida principal fica a poucos metros dali e vê-la não é necessário pra notar sua existência – o barulho típico do trânsito no fim da tarde é o suficiente.

Ainda mais perto do prédio – e da vista – fica o Seu Antônio, em sua cadeira de balanço. Não sai dali, de jeito nenhum. Quando muito sol, aparece de boné. Pelas cores deve ser do Flamengo, da época de Zico, ainda. Ou então de algum candidato, de alguma eleição passada. Vai saber... Quando chuva, usa uma capa azul bebê pra se proteger, e dá pra ver a fumaça do cigarro de palha, companheiro inseparável do Seu Antônio, subir a cada 20 minutos, exatamente. Quando nem chuva, nem sol, Seu Antônio passa o dia com a careca exposta – ao menos pra quem vê ali de cima – e um livro na mão, sempre o mesmo.

Mais à esquerda, o tradicional bar do Mathias. Difícil explicar o conceito de bar, de maneira universal, para que todos imaginem da mesma forma. Mas, para um homem, de uma cidade pequena, nada mais é do que um pequeno estabelecimento que vende cerveja gelada e põe umas mesinhas na calçada aos finais de semana. O movimento do bar do Mathias é sempre intenso. 90% ou mais de homens. As mulheres que se arriscam entrar são a filha e a esposa do dono, o Mathias, pra pegar o dinheiro que tem no caixa, provavelmente.

"...os poucos que viram você aqui me disseram que mal você não faz..."


Depois da Avenida há muito pouco pra olhar. 

O campinho da cidade, ao fundo, com meninos exercitando todo o dia a capacidade de sonhar e um dia se tornarem jogadores de futebol de clubes famosos no Brasil e no exterior. Um pouco mais perto a praça e a igreja, alguns poucos casais sentados, namorando à moda antiga, e uns senhores jogando dominó. Senhores esses que deveriam ser a companhia diária do Seu Antônio, mas pelo jeito ele não se dá muito bem com os velhinhos e prefere o conforto de sua cadeira de balanço. O resto, grandes plantações, de grandes fazendeiros, de poucas famílias, de muito dinheiro.

Já são quase 5 e meia da tarde. Essa hora ele fixa o olhar pra esse lado da Avenida, de novo. Aqui, mais à direita da casa do Seu Antônio. Ela chega na pequena escola. Sempre ao celular, deve ser muito ocupada. Bem vestida e sorridente. Espera um pouco, bem pouco, pois saída de escola nunca atrasa – as crianças não deixam. Pega na mão de um menino. Deve ser seu irmão. Ou filho? Entra no carro. Deve morar numa das grandes fazendas de poucas famílias. É linda, quanto a isso não resta dúvida. Entra no carro sem olhar pra cima – quem sabe amanhã? O carro arranca, ela parte. Ela volta amanhã, 5 e meia.

O telefone toca. Uma, duas, três vezes. Ele corre pra atender, com as mãos suadas, não se sabe porquê.

- Alô!


- Onde você estava que não atende o telefone? Vai dizer que estava de novo no vitrô da cozinha? 

- Sim, estava olhando a cidade.
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