sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Reflexo

Era 7h40m quando acendeu o visor do celular pela primeira vez na manhã. Exatamente o mesmo horário de todos os dias - faltavam cinco minutos para o despertador soar. Mas nenhum aparelho eletrônico tinha a programação melhor que o próprio corpo dela, que todo dia despertava apenas com o poder da mente, no mesmo exato horário.

- Você acha que estou velha? Eu só posso estar velha!

Estava se sentindo ótima naquele dia, com uma disposição animadora.

- Não me preocupar? Pra você é fácil falar...
- Não é você que diz que velhos que acordam cedo? Pois é. Acordei antes mesmo do despertador mais uma vez.

Olhou para o teto e em todo o redor, analisando o ambiente, satisfeita com o novo papel de parede vintage combinando com a mobília charmosamente envelhecida.
Sorriu. Era uma espécie de ritual inconsciente: despertar, analisar o ambiente e sorrir satisfatoriamente por ter se tornado a exata pessoa que sempre quis ser.

- Não entendo essa sua mania de mudar de opinião.
- Fui muita dura com você? Fui grossa? Ando muito ranzinza, não é mesmo? Deve ser sinal da idade.

Gastou vários minutos desfrutando de um relaxante banho, e mais alguns secando os cabelos. Depois, passou um creme no rosto, tão macio, pele lisa para uma mulher beirando os 40 anos.


- Você viu essas marcas em meu rosto? Como pode dizer que não estou velha?
- Você fala isso porque não conhece a Flávia.
- É, ela vem aqui em casa às vezes, lembra dela?
- Ai que ódio tenho da Flávia. 5 anos a mais que eu, 5 vezes menos rugas. Pode?
- Você está falando isso só pra eu não ficar cabisbaixa.
- Não adianta, eu não confio mais em você.

Hora de se vestir. Teria de ser uma roupa especial, combinando com o ótimo humor em que se encontrava naquele dia.

- Pra variar, não tenho roupa pra hoje.
- Que blazer? Aquele vermelho? É horrível!
- Gostava sim. Não posso mudar de opinião? Você muda toda hora.
- Sempre as mesmas desculpinhas.
- Tudo bem, chega de se fazer de vítima e me ajuda a pensar em uma roupa pra usar hoje.

Escolheu um blazer vermelho, saia preta pouco acima do joelho, e scarpin preto, salto respeitosamente alto, que a fazia sentir imponente, poderosa. Assim como o era. Vaidosa, porém não narcisista: aplicou maquiagem básica, modelou os cabelos, juntou os pertences críticos na bolsa e saiu da adorável casa que habitava sozinha.
Após estacionar o carro na vaga que já a esperava, adentrou o ambiente de trabalho. Todos que lá jaziam a saudaram com um carinho respeitoso. Era a chefe dali, mas as pessoas a viam como uma líder: Respeitada, ao invés de temida.

- Me preocupo tanto com a roupa e com as rugas pois, quando chego lá, fica todo mundo me olhando.
- Duvido.
- Eu os conheço melhor que você. Estou falando que duvido. Não tem respeito nenhum. É inveja mesmo. E puxa-saquismo muitas vezes. Sempre tem um querendo me dar uma rasteira.

Respondeu às saudações, se dirigindo para sua sala particular, o ambiente mais acolhedor do mundo para ela, após a própria casa. Uma parede de vidro planejada com a vista para o campo que se escondia nos fundos do galpão, contrastando com a cidade cinza do outro lado; luminárias que pendiam no teto em formatos diferentes; plantas em grandes vasos, textura de madeira nas paredes de concreto. A mesa era pequena - mesas grandes sempre significavam abrigo para muitos problemas. Preferira resumir tudo em um pequeno quadrado abrigando apenas um laptop, alguns vasos com flores e um pequeno rádio, sempre ligado, revelando seleções incríveis de MPB, seu gênero favorito. Trabalhar ouvindo música era como praia e Sol, combinação fundamental para fazer fluir qualquer coisa.

- Coloquei a parede de vidro porque li em uma revista que ajudava na integração da equipe. Técnica furada de RH.
- É verdade, me arrependo.
- Mas se eu mandar trocar agora todo mundo vai achar estranho.
- Viu, mudou de ideia de novo.
- Fala a verdade, vai... Acha que devo trocar?

Quando ela recostava em sua poltrona macia, fechava os olhos por alguns segundos, sentia toda a perfeição e harmonia do Universo, como se o mundo fosse perfeito, e ela fosse uma dádiva ambulante.

- Pra falar a verdade, não queria sair de casa hoje.
- Claro que não é só pra ficar conversando com você.
- Estou brincando. Você aí no espelho é minha melhor amiga, você sabe.
- Que Flávia, que nada! Só você me entende.
- Tenho que ir agora, tudo bem?
- Eu também não queria. Mas estou atrasada. E já basta o tanto que me encaram quando chego, não quero dar mais motivos.
- Até mais.

Antes de se jogar em mais um dia de trabalho.
Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário:

Postar um comentário