segunda-feira, 29 de julho de 2013

O grande ditador

Discurso final do filme 'O Grande Ditador', pra guardar na memória.


"Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!"

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Histórias brasileiras de verão



“(...) Mas o comum é a pessoa saber pelo menos se é da raça científica ou da humanística e depois escolher entre as opções de cada uma. O que não impede os mal-entendidos. Lembro como eu gostava daqueles problemas matemáticos com historinha, tipo ‘Se um trem sai de uma estação a tal hora viajando a tantos quilômetros por hora e outro sai de outra estação a tantos quilômetros de distância na mesma hora e na mesma velocidade mas o maquinista precisa passar em casa e perde cinco minutos...’ ou ‘Se uma mãe tem três pedaços de laranja para repartir entre cinco filhos...’. Cheguei a pensar que meu cérebro gostava de contas e minha vocação era para as ciências exatas, até me dar conta de que eu não gostava de matemática. Gostava era das historinhas.”

Trecho extraído do texto VOCAÇÕES


“(...) Quanto dura o Carnaval? O Carnaval é um tríodo de cinco dias: sexta, sábado, domingo, segunda e terça. Tem uma vez por ano, menos na Bahia, onde o atual Carnaval é o de 1948, que ainda não terminou. (...)”

Trecho extraído do texto GUIA DO CARNAVAL


“(...) Fazem elogio do inimigo. Chamam qualquer coisa boa de ‘sonho’ mas esquecem que todo sonho é monstruoso, mesmo os bons. O sonho é o pensamento contra a nossa vontade, é uma ocupação forçada do nosso cérebro para nos iludir ou anarquizar – além de normalmente serem confusos, mal dirigidos e cheios de simbolismo arcaico. E não temos defesa contra o sono ou o sonho. Nosso direito fundamental de ser consciente é desrespeitado todos os dias, sistematicamente. (...)”

Trecho extraído do texto O SONO

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Fé Solúvel

Por Caio Lafayette
(Para ler ao som de: A fé solúvel - O Teatro Mágico)

Na sala de casa, escura – a lâmpada queimada. Apenas a TV ligada, sem som. Mãos na cabeça. Olhos rígidos. Nenhuma gota. Onde elas estariam? Era uma hora apropriada para elas aparecerem, mas não.

Na cozinha, a geladeira vazia. No armário, procurou bolacha, achou pão velho. Na mesa, a toalha suja. O vitrô quebrado em formato de coração. Quem teria feito aquilo?

O computador, antigo, grande e barulhento no canto da sala. A proteção de tela acusava um passado não muito distante. Mas passado é passado, seja ele distante ou não. A internet com problema mais uma vez. As reclamações com a operadora que prometia TV+Telefone+Internet pareciam não surtir efeito. Gastava todos os minutos de telefone que tinha direito no mês reclamando. De quê adiantava?

As gavetas do quarto cheias e desorganizadas. Que bagunça! Era um retrato do que passava pela sua cabeça. Por falar em retrato, ainda sobrou um, na cabeceira da cama. Amarelado. Retrato amarelado, de sujeira. Foto amarelada, de velha. Sorrisos amarelados, como se previssem tudo que estava por vir.

Um banho, morno. A toalha molhada remetia a um banho tomado há não muito tempo. Ou será que ele tinha se esquecido de colocá-la pra secar? O sol podia ajudar e entrar pela janela do banheiro. Os vizinhos podiam ajudar, não levantando construções tão altas, que obstruíam a chegada do sol.

Sem ela era assim. Toalha molhada, tubo de shampoo vazio, Prestobarba usado jogado em cima da pia.

Embaixo da cama, alguns sapatos. De salto. E sandálias. Sem dúvida não eram dele. Na parede, um quadro e uma assinatura. Assinatura essa que foi pro papel, junto com a dele, registrada em cartório, com testemunhas.

***


Acorda com o interfone tocando.

- Senhô. Ela tá aqui embaixo querendo subir.


- Tonho, você sabe pra que apartamento você ligou?

- Sim Senhô. E ela tá aqui querendo subir Senhô.

- Ela quem?

- ELA Senhô!

Um breve silêncio, pra ele. Um longo silêncio, para o porteiro.

- Senhô? O Senhô inda tá aí? Ihhhhh, acho que o homi desmaiô.


- Tonho, tô aqui. Pede pra ela subir.

São 6 andares. Quanto tempo será que isso dura? Não é possível que seja mais do que 6 anos. Cadê ela? Isso está demorando mais do que 6 anos. Bem mais do que seis anos. 

A campainha toca. Ele abre a porta.

Ela entra sem ao menos dar ‘oi’. Passa por ele como se não o conhecesse. A planta da casa conhece, foi direto para o quarto deles – não, dele. Ele a acompanha.

- O que você quer aqui?

Ela não se dá ao trabalho de responder. Mexe nas gavetas cheias e desorganizadas. Olha embaixo da cama os sapatos e sandálias que não são dele.

- Dá pra me dizer o que você quer aqui?

Ela passa rápido pelo banheiro e vai para a cozinha. Ele a acompanha. Ela abre os armários. Parece não achar o que procura.

- Se você disser o que está procurando, posso tentar ajudar...

Ela vai pra sala. A TV continua ligada, sem som. Ela já parece impaciente. Volta pro quarto e vê o retrato amarelado. Para por alguns segundos. Talvez muitos segundos. Ninguém sabe.

Caminha em direção à porta. Antes de sair, finalmente ela fala.

- Você precisa fazer uma faxina nessa casa. Urgente!

E sai.

***
- Tonho.

- Sim Senhô.

- Ouça bem: quando essa mulher aparecer aqui de novo, nem me avisa. Não é pra deixá-la subir, entendeu?

- Sim Senhô, mas foi o Senhô que autorizou.

- Eu sei, mas mesmo que eu autorize. Não é pra ela subir.

- Que raiva da Dona é essa Senhô?

- Tonhô, não é da sua conta.

- Sim Senhô! 

- Éééééé...

- Mais alguma coisa Senhô?

- Éééééé... Tonho, você tem o telefone de alguma faxineira?

quinta-feira, 18 de julho de 2013

E o seu nível de corrupção, como vai?

Texto de MILLÔR FERNANDES, extraído do livro "Todo homem é minha caça", Editorial Nórdica Ltda. — Rio de Janeiro, 1981, pág.60.




Dizem por ai que todo homem tem seu preço. Há quem vá mais longe afirmando que alguns homens são vendidos a preço de banana. Sempre esperei, na vida, o dia da Grande Corrupção, e confesso, decepcionado, que ele nunca veio. A mim só me oferecem causas meritórias, oportunidades de sacrifício, salvações da Pátria ou pura e frontalmente a hedionda tarefa de lutar.. . contra a corrupção. Enquanto eu procuro desesperadamente uma oportunidade, as pessoas e entidades agem comigo de tal forma que às vezes chego a duvidar de que a corrupção exista. Mas, falar em corrupção, como anda a sua? Vendendo saúde ou combalida e atrofiada como a minha? Responda com muito cuidado às perguntas abaixo e depois conclua sobre sua própria personalidade: você é um corrupto total ou um idiota completo? (Não há meio-termo.) Conte 10 pontos para cada resposta certa (você é quem decide qual é a certa) e verifique depois o grau de sua corruptibilidade. Nota: Se você roubar neste teste, é porque sua corrupção é mesmo absolutamente incorruptível.

A) Você descobre que o chefe do seu departamento está com um caso complicado com a secretária do outro chefe em frente. Você: 1) Finge que não viu nada. 2) Diz à secretária que ou também está, nessa ou vai botar a boca no mundo. 3) Oferece o seu sítio ao chefe pra ele passar o fim de semana. 4) Bota a boca no mundo. 5) Insinua ao chefe que há a perigosa hipótese de a mulher dele vir a saber (e enquanto isso põe a promoção embaixo do nariz dele pra ele assinar).

B) Você acha que a Lei e a Ordem é uma mística social maravilhosa para: 1) Impor a lei e a ordem. 2) Acabar com a grita dos descontentes. 3) Grandes oportunidades de ganhar algum por fora. 4) Dividir o bolo entre os íntimos sem ninguém de fora piar.

C) A primeira vez em que você ouviu falar do escândalo de Watergate você disse: 1) Isso é que é país! 2) Como é que o governo americano permite uma imprensa dessas? Isso desmoraliza um país! 3) Eu não compraria um carro usado desse Nixon. 4) Isso jamais aconteceria entre nós. 5) Quanto terão levado esses caras pra se arriscarem dessa maneira?

D) Você, como representante oficial da fiscalização, comparece à apresentação de contas, em dinheiro, no Instituto dos Cegos. Fica surpreendido com o alto volume das arrecadações e em certo momento: 1 ) Diz : "Estou surpreendido com a miserabilidade dos donativos". E tenta enrustir algum. 2) Diz: "Como representante do fisco sou obrigado a reter 30 % de tudo porque esta arrecadação é totalmente ilegal". 3) Diz: "Teria sido até uma boa arrecadação se metade das notas não fossem falsas". 4) Disfarça bem a voz e diz, entredentes: "Todos quietinhos aí, seus Homeros de uma figa: Isto é um assalto!"

E) Você se demite do cargo de maneira irrevogável por insuportáveis pressões morais e absoluta impossibilidade de compactuar com a presente política da firma. Eles prometem triplicar o seu salário. Você: 1) Recusa, indignado, por pensarem que é tudo uma questão de dinheiro. Só ficará se eles derem também as três viagens anuais à Europa a que todos os diretores têm direito. E participação nos lucros retidos da companhia. 2) Diz que, evidentemente, isso e uma prova moral de que eles estão de acordo com você. O dinheiro, aí é definitivo como demonstração de confiança na sua gestão. 3) Pede para pensar 5 minutos antes de dar a resposta. 4) Explica que tem mulher e filhos e não pode manter um pedido de demissão feito, afinal de contas, por motivos tão irrelevantes.

F) Há uma diferença fundamental entre fraudar e evitar o imposto de renda. Quando você descobriu isso, você: 1) Ficou indignado com as possibilidades de os poderosos usarem tudo a seu favor. Como é que se pode escamotear um ordenado? 2) Começou a estudar furiosamente a legislação para descobrir todos os furos. 3) Tinha 11 anos de idade e estava terminando o curso primário. 4) Nunca mais pagou um tostão de imposto.

G) Você dá um nota de 10 pra pagar o jornal, no jornaleiro velhinho da banca da esquina, e percebe que ele lhe deu 50 como troco. Você imediatamente: 1) Corrige o erro do velhinho? 2) Reclama chateado aproveitando a gagaíce do vendedor: "Pô, eu lhe dei uma nota de 100?" 3) Chega em casa e manda todos os seus filhos comprarem vários jornais? 4) Bota o dinheiro no bolso e fica freguês?

H) Você teve que fazer um trabalho na rua, não pôde almoçar, comeu um sanduíche. Você apresenta a conta na companhia: 1) Um sanduíche — 3 cruzeiros. 2) Almoço — 32 cruzeiros. 3) Almoço com o representante da A&F Ltda. — 79 cruzeiros. 4) Despesas gerais — 143 cruzeiros.

I) Quando o desfalque dado pelo auditor geral (8.000.000 pratas) chega a seus ouvidos você murmura: 1) "Idiota, se deixar apanhar assim". 2) "Será que eles vão descobrir também os meus 10.000?". 3) "Se ele tivesse me dado 10% eu tinha feito o negócio de maneira que ninguém nunca ia descobrir". 4) "Eu fiz bem em não entrar no negócio".

Conselho de amigo:
Quando alguém, na rua, gritar "Pega ladrão!", finge que não é com você.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Recopa Sul-Americana

RECOPA 1993



29.09.1993 Belo Horizonte (MG) Estádio Governador Magalhães Pinto 
CRUZEIRO Esporte Clube 0 X 0 SÃO PAULO Futebol Clube 
Nos pênaltis, 4 x 2 para o São Paulo. 

SPFC: Zetti; Cafu, Válber, Ronaldão (capitão) e André Luiz; Gilmar, Dinho, Toninho Cerezo e Juninho; Palhinha (Catê) e Valdeir (Jamelli). Técnico: Telê Santana.

CEC: Sérgio; Paulo Roberto (capitão), Robson, Luizinho (Célio Lúcio e Nonato; Ademir, Rogério Lage, Boiadeiro e Luís Fernando; Macedo (Careca) e Ronaldo. Técnico: Carlos Alberto Silva.


RECOPA 1994


03.04.1994 Kobe (Japão) Estádio da Universidade de Kobe 
SÃO PAULO Futebol Clube 3 X 1 BOTAFOGO de Futebol e Regatas 

SPFC: Zetti (capitão); Vítor, Válber, Júnior Baiano e André Luiz; Doriva, Cafu (Axel), Palhinha (Juninho) e Leonardo; Euller e Guilherme. Técnico: Telê Santana. 

Gols: Leonardo, 12'/1; Guilherme, 28'/2; Euller, 44'/2.

BFR: Wágner; Perivaldo, Wilson Gottardo (capitão), André Silva e Eduardo; Márcio Borges; Roberto Cavalo, Grizzo (Marcelo) e Sérgio Manoel; Fabiano (Robson) e Túlio. Técnico: Dé Aranha.




RECOPA 2013

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Zecamunista e o plebiscito



"(...) diante da notícia do plebiscito, tinha decidido colaborar no esclarecimento dos eleitores itaparicanos. Se houver plebiscito, não podemos fazer feio, temos que mostrar preparo. Já ia até começar umas pesquisas preliminares e, para não dizerem que escolhia a seu bel-prazer, tinha preferido sortear um cidadão para entrevistar.

Sorteio é sorteio e quiseram os fados que o sorteado fosse Tucão de Evilásia, neto de finado Bidu da Misericórdia. Versado em várias artes, da pintura de paredes e da limpeza de pescado à colheita de mangas e à capinação, Tucão é pessoa por todos estimada na coletividade, pelo seu trato gentil, conduta incriticável e disposição prestimosa. Mas, ponderaram diversos, nunca se destacou muito pela cultura e há quem garanta que a professora Sazinha pediu aposentadoria depois de ter ficado repuxada dos nervos, por ter tido Tucão como aluno durante uns dez anos, sem que ele saísse do curso primário. Não haveria como Zecamunista escolher outro, um Ary de Maninha ou um Jacob Branco, campeões da oratória e do conhecimento? Zeca negou-se a fazer a troca, o sorteio estava sacramentado e era à prova de mutreta, o governo não se metia e nada de medalhões e elitismo. O objetivo era traçar o perfil do eleitor e ninguém podia negar que Tucão era um cidadão normal, como qualquer outro.

Falai no Mendes, à porta o tendes, já diziam os antigos. Eis que, nesse mesmo instante, assoma à entrada a figura afável de Tucão. Ainda bem que conseguira chegar antes de Manolo ficar com sono às seis horas da tarde e botar todo mundo para fora do bar. Estivera entretido com a televisão, vendo os protestos. E se detivera um pouquinho mais, para prestar atenção na explicação do plesbicítio.

- Plebiscito - corrigiu Zeca.

- Plebliscito - disse Tucão.

- Ple-bis-ci-to.

- Plesbicito.

- Plebiscito!

- É minha língua que não dá, mas eu sei como é - explicou Tucão. - Eu sempre tive esse problema da língua preguiçosa. Professora Sazinha...

- Tudo bem, mas pelo menos você já sabe o que é.

- Claro que eu sei, a televisão explicou. O pessoal saiu nos protestos, aquele sufoco medonho, bomba, porrada, todo mundo pedindo providências para os problemas, e aí chega a presidenta e discursa que ficou sabendo desses problemas que antes ela não tinha resolvido porque desconhecia e agora passou a conhecer e, na qualidade de presidenta disso tudo aqui, apresentava logo tudo completamente resolvido, atendendo a todos os pedidos com grande satisfação e rapidez, o qual atendimento era esse que hoje está tão falado.

- O plebiscito - disse Zeca.

- Isso mesmo, o plesbicíntio - disse Tucão, caprichando na pronúncia. - Ninguém pode dizer que não resolveu tudo, é ou não é?"


Trecho extraído do texto A VOZ DO POVO, de João Ubaldo Ribeiro

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Paulo Autuori, sim

Por Caio Lafayette

Escrevo esse texto ainda sem a confirmação do nome de Paulo Autuori como novo técnico do São Paulo.

Pois bem...

Tenho visto grandes demonstrações da torcida do São Paulo em favor do nome de Muricy Ramalho para assumir o lugar que até pouco tempo pertencia a Ney Franco. Isso só pode ser coisa de quem não assiste partidas de futebol, mas acompanha os resultados pelo ‘Placar Uol’.

Digo isso pois é muito claro que Muricy Ramalho não sabe montar um time – muito pelo contrário, destrói todos que assume. Foi assim com o Santos, que dependia excessivamente de Neymar; foi assim com o Palmeiras, líder até a sua chegada; foi assim com o Fluminense, que mesmo com os altos investimentos não tinha um time; foi assim com um São Paulo antes estruturado, com bom elenco, que foi definhando em suas mãos.

Mas ele ganhou títulos em quase todos, não é?

É verdade. Pegou um Santos muito bem montado pelo Dorival Jr., ganhou a Libertadores – ou foram os jogadores que ganharam? – e com o tempo ficou nítido que o time piorava a cada jogo. Pegou um Fluminense cheio de craques, venceu o Brasileiro graças aos talentos individuais e depois notou-se que ali não existia um time. No São Paulo, pegou um ‘super-time’, foi eliminado de todas as competições que exigiam um ‘algo a mais’ e venceu três brasileiros – ou foram os jogadores? – sendo que no último, com um time desmantelado, com a sua cara, venceu na ‘bacia das almas’, com uma única jogada que caracteriza os seus trabalhos: bola cruzada na área e que seja o que Deus quiser – o tal ‘Muricibol’.

Sim, Muricy é limitado. Os times dele são estáticos, dependem exclusivamente de qualidades individuais, ele não é um grande motivador, joga com três volantes, laterais que pouco apoiam e reza para que no elenco exista um Jorge Wagner ou Marcos Assunção pra cruzar bolas na área. Só!

O São Paulo não é um time pronto e precisa ser montado. Muricy não é o cara.


Então, por que o Autuori se...

  •  ...ele já deixou uma vez o próprio São Paulo?
Paulo Autuori fez uma escolha muito clara ao deixar o São Paulo em 2005: fazer seu pé-de-meia, ganhar bem no mundo árabe, garantir o futuro da família. É um profissional e sua escolha merece respeito. 


  • ...ele vem tendo resultados não muito animadores?
Não podemos analisar os resultados dele pelos trabalhos curtos em Cruzeiro, Grêmio e Vasco entre 2005 e agora, muito menos no mundo árabe. O que temos certeza é que ele traz em seu currículo duas libertadores – uma pelo São Paulo e uma pelo Cruzeiro – e um Mundial.

  • ...ele não é um grande motivador?
O que o São Paulo precisa no momento não é de motivação, é de um time. E time por time, não lembro de um São Paulo tão perfeito quanto o campeão mundial de 2005. Zaga firme, volantes que marcavam e criavam, alas que apoiavam, cobertura perfeita de Mineiro pela direita e Danilo pela esquerda, Amoroso livre da responsabilidade de marcar com incumbência clara de criar – e como criava.

  • ...não foi ele que montou o time de 2005?
Meia verdade. Quem trouxe boa parte daqueles jogadores foi o Cuca. Mas ainda não era um time. Leão começou a montar, mas em pouco tempo mais destruiria – como sempre faz. Paulo Autuori montou, sim, o time. Talvez não o elenco. Mas o time jogava graças aos seus métodos.

  • ...não é o nome preferido da torcida?
A distância dele do país faz com que haja pouca simpatia da torcida. Apenas isso. Lembro que saiu do São Paulo como ídolo e não tenho dúvida que voltará a ser. Resta a Diretoria dar tempo a ele, pois os resultados não serão automáticos. Há muito o que consertar e não será de uma hora pra outra.
Em suma, Paulo Autuori, sim.

E que ele traga consigo a sorte que trouxe em 2005.