quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Memória de minhas putas tristes

Trechos extraídos do livro 'Memória de minhas putas tristes', de Gabriel García Márquez.

“No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza dos meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver.”


“(...) é um triunfo da vida que a memória dos velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas raras vezes falhe para as que de verdade nos interessam.”


“O diretor daquela época me chamou então ao seu escritório para pedir que eu me pusesse afinado com as novas correntes. De um jeito solene, como se acabasse de inventar, me disse: O mundo avança. Sim, respondi, avança, mas dando voltas ao redor do sol. Manteve minha crônica dominical porque não encontraria outro domador de telegramas. Hoje sei que eu tinha razão, e por quê. Os adolescentes da minha geração, ávidos pela vida, esqueceram de corpo e alma as ilusões do porvir, até que a realidade ensinou a eles que o futuro não era do jeito que sonhavam e descobriram a nostalgia.”


“Na semana seguinte, presa de um estado que era mais de confusão que de alegria, passei pelo depósito municipal para recolher o gato que os impressores tinham me dado de aniversário. Tenho uma química ruim com os animais, do mesmo jeito que com as crianças assim que começam a falar. Acho que são mudos de alma. Não os odeio, mas não consigo suportá-los porque não aprendi a negociar com eles. Acho contra a natureza que um homem se entenda melhor com seu cão do que com sua esposa, que o ensine a comer e descomer na hora certa, a responder perguntas e compartilhar suas penas. Mas não recolher o gato dos tipógrafos seria uma indelicadeza.”


“Assim que abri a porta de casa, saiu ao meu encontro a sensação física de que eu não estava sozinho. Cheguei a sentir o presságio do gato saltando do sofá e escapulindo pela varanda. Em seu prato restavam as sobras de uma comida que eu não havia servido. A pestilência de suas urinas rançosas e de sua caca quente havia contaminado tudo. E eu tinha me dedicado a estuda-lo como estudei latim. O manual dizia que os gatos cavucam a terra para esconder seu esterco, e que nas casas sem quintal, como esta, fariam isso nos vasos de plantas ou em qualquer outro esconderijo. O apropriado seria preparar para ele desde o primeiro dia uma caixa com areia para orientar seu hábito, e foi o que fiz. Também dizia que a primeira coisa que fazem numa nova casa é marcar seu território urinando por todos os lados, e aquele talvez fosse o caso, mas o manual não dizia como remediar. Eu seguia suas artimanhas para me familiarizar com seus hábitos originais, mas não dei com seus esconderijos secretos, seus lugares de repouso, as causas de deus humores volúveis. Quis ensiná-lo a comer na hora certa, a usar a caixinha de areia no terraço, a não subir na minha cama enquanto eu dormia nem a fuçar nos alimentos na mesa, e não consegui fazer com que entendesse que a casa era dele por direito adquirido e não como butim de guerra. Acabei deixando que fizesse o que bem entendesse.”


“Quando o aguaceiro passou eu continuava com a sensação de que não estava sozinho na casa. Minha única explicação é que da mesma forma que os fatos reais são esquecidos, também alguns que nunca aconteceram podem estar na lembrança como se tivessem acontecido.”


“A casa renascia de suas cinzas e eu navegava no amor de Delgadina com uma intensidade e uma felicidade que jamais conheci em minha vida anterior. Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.”


“Então compreendi até que ponto o sofrimento havia me corrompido. Não me reconhecia na minha dor de adolescente. Não tornei a sair de casa para não descuidar do telefone. Escrevia sem desliga-lo, e no primeiro toque pulava em cima dele pensando que poderia ser Rosa Cabarcas. Interrompia a cada tanto o que estivesse fazendo pra liga pra ela, e insisti dias inteiros até compreender que aquele telefone não tinha coração.”

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Se é assim, governo pra quê?

Texto de José Serra.


Não é segredo, mas o fato de a coisa ser óbvia não faz brotar do chão as obras: o principal problema econômico do Brasil é o imenso déficit na infraestrutura – estradas, ferrovias, hidrovias, mobilidade urbana, portos, aeroportos e energia. Esse déficit se deve à incapacidade do governo federal de dar realidade aos investimentos públicos.

Como proporção do PIB, o Brasil está entre os dez países do mundo onde o governo menos investe. Um paradoxo, sem dúvida, se levarmos em conta o tamanho da carga tributária – a maior do mundo em desenvolvimento – e a excepcional bonança externa que favoreceu a economia brasileira desde meados da década passada até recentemente.

Os frutos dessa bonança e os maiores recursos fiscais não foram aproveitados para elevar investimentos, e sim para financiar gastos correntes do governo, consumo importado (que substituiu a produção doméstica), turismo no exterior e grandes desperdícios. Não é por menos, aliás, que o Brasil caminha firme rumo à desindustrialização e, com ela, à queda de investimentos no setor, à exportação de postos de trabalho mais qualificados e à renúncia dos benefícios do progresso técnico que acompanha a atividade manufatureira.

Mais ainda: o País tornou-se vítima, novamente, do desequilíbrio externo, com um déficit em conta corrente caminhando para 4% do PIB. Nota: é bobagem relativizar o peso desse número com a máxima de que temos reservas altas. Relevante é a tendência observada, que piora as expectativas, leva à contração dos investimentos privados e à pressão sobre a taxa de câmbio.

Parece paradoxal, mas o fraco desempenho dos investimentos públicos se deve à inépcia, não à escassez de recursos. O teto dos investimentos federais pode até ser baixo, e é, mas o governo não conseguiu atingi-lo. A falta de projetos, de planejamento, de gestão e de prioridades é o fator dominante.

Há exemplos já “tradicionais” de obras que, segundo o cronograma eleitoral propagandeado, deveriam ter sido entregues, mas percorreram de zero à metade do caminho, como a Ferrovia Transnordestina, a transposição do São Francisco, a Refinaria Abreu e Lima, a Ferrovia Oeste-Leste (Bahia), as linhas de transmissão para usinas hidrelétricas prontas (Santo Antônio e Jirau), etc. A ponte do Guaíba, no Rio Grande do Sul, nem saiu do projeto. Dez aeroportos da Infraero estão com contratos paralisados. Os atrasos das obras nas estradas federais contempladas no PAC são, em média, de quatro anos – para a BR-101, no Rio Grande do Norte, serão, no mínimo, cinco: deveria ter sido entregue em 2009 e foi reprogramada para 2014. Depois de um pacote de concessões de estradas muito mal feito, em 2007, só agora, seis anos depois, o governo anuncia um novo, e em condições adversas, dadas as incertezas da economia e dos marcos regulatórios.

O emblema da falta de noção de prioridades é o trem-bala, anunciado em 2007. Só transportaria passageiros e, segundo o governo, custaria uns R$ 33 bilhões. O Planalto garantia que seria bancado pelo setor privado. O aporte do Tesouro Nacional não passaria de 10% do total. Graças à inépcia – nesse caso, benigna, porque se trata de uma alucinação – e ao desinteresse do setor privado em cometer loucuras (apesar dos subsídios fiscais e creditícios que receberia), não se conseguiu até hoje licitar a obra. Depois do recente adiamento, o ministro dos Transportes estimou que a concorrência ficará para depois de 2014. Ao ser lançado, o governo dizia que já estaria circulando durante a Copa do Mundo…

Desde logo, os custos foram grosseiramente subestimados. Esqueceram-se as reservas de contingência e foram subestimados os preços das obras. O custo dos 100 km de túneis foi equiparado ao dos túneis urbanos, apesar de serem muito mais complexos e não disporem de rede elétrica acessível. Esqueceram-se de calcular o custo das obras urbanas para dar acesso rápido às estações do trem. A preços de hoje, a implantação do trem-bala se aproximaria de R$ 70 bilhões. Além dos subsídios do BNDES, que saem do bolso dos contribuintes, o banco seria investidor direto, ao lado da… Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos!

A obra não foi adiante, mas o governo não desistiu. Para variar, criou uma empresa estatal para cuidar do projeto, que já emprega 140 pessoas. Até o ano que vem, o alucinado gestor governamental do trem-bala anunciou o gasto de R$ 1 bilhão, sem que se tenha movido ainda uma pedra. O atual ministro dos Transportes desmentiu-o, assegurando que seriam apenas… R$ 267 milhões! Sente-se mais aliviado, leitor?

Admitindo que seria possível mobilizar R$ 70 bilhões para transportes, um governo “padrão Fifa”, como pedem as ruas, poderia, sem endividar Estados e municípios, fazer a linha do metrô Rio-Niterói, completar a Linha 5 e fazer a Linha 6 do metrô de São Paulo, concluir o de Salvador, tocar os de Curitiba e Goiânia, a Linha 2 de Porto Alegre, a Linha 3 de Belo Horizonte, construir a ferrovia de exportação Figueirópolis-Ilhéus, a Conexão Transnordestina, a Ferrovia Centro-Oeste, prolongar a Norte-Sul de Barcarena a Açailândia e Porto Murtinho a Estrela d’Oeste, o Corredor Bioceânico Maracaju-Cascavel e Chapecó-Itajaí. E, é certo, poder-se-ia fazer uma boa ferrovia Campinas-Rio de Janeiro, com trens expressos normais, aproveitando a infraestrutura já existente.

Nessa perspectiva, seriam investidos R$ 35 bilhões em transporte de cargas e outros R$ 35 bilhões em transporte de passageiros, beneficiando mais de 5 milhões de pessoas por dia. O trem-bala, na suposição mais eufórica, transportaria 125 mil pessoas por dia – 39 vezes menos!

É evidente, leitor, que nada disso é fácil. Acontece que, no geral, as facilidades se fazem por si mesmas. Populações criam o Estado e elegem governos para que se façam as coisas difíceis e necessárias. Só por isso aceitamos todos pagar impostos, abrir mão de parte das nossas vontades e sustentar uma gigantesca burocracia. Os governos existem para tornar mais fáceis as coisas difíceis, e não para fazer o contrário.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

‘Diálogos com São Paulo’


Na próxima segunda-feira, 26 de agosto, o Diretório Estadual do PSDB-SP dará início ao programa “Diálogos com São Paulo”, que tem por objetivo discutir com representantes da sociedade civil o Brasil que emergiu das ruas após as manifestações que vêm sendo realizadas desde junho deste ano.

Este primeiro encontro reunirá Bolívar Lamounier, Gustavo Ioschpe e Marcos Lisboa, que representam, respectivamente, personalidades das áreas da ciência política, educação e economia.

“Vamos discutir e, juntos, tentar entender a nova realidade brasileira. A troca de idéias e de visões diferentes, que abrem espaço para novos conceitos, é o primeiro passo para atitudes construtivas. Cada presença neste encontro é muito importante para nossa sociedade, para esta reforma que queremos fazer em nosso país”, disse o presidente estadual do PSDB-SP, deputado Duarte Nogueira.


Data e horário: 26/08, às 19h

Local: Diretório Estadual do PSDB-SP - Av. Indianópolis, 1123 – Moema – São Paulo

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Breve história da internet

Excelente texto de Gregorio Duvivier, ator, escritor e um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.





Conheceram-se na sala dez a 15 anos do bate-papo UOL. De onde teclas? Ele teclava de Belo Horizonte, ela de Caxias do Sul. Ele deu um número de ICQ. Passaram dias ao som de oh-ou e navios partindo. Ele pediu uma foto. Ela não tinha foto. Descreveu-se ruiva (não era). Ele se apaixonou perdidamente.Pediu o e-mail dela: era do iG, por causa do cachorrinho. O dele era Zipmail, por causa da Luana Piovani. Mandou um poema. Ela respondeu dez minutos depois. Trocaram todo tipo de poemas e cartas de amor. Até a caixa postal dele lotar, uma semana depois. Ele apagou todos os e-mails que não eram dela (ou pra ela). Não eram muitos.

Logo lotou de novo. Migraram para o Hotmail. A caixa postal era um pouco maior. Conheceram o MSN. Ele pediu uma foto. Ela pintou o cabelo de vermelho só pra tirar a foto. Mandou. Ele gostou mais ainda. Ela fez um fotolog só com fotos dela. Pra ele. O fotolog fez sucesso, não só com ele. Combinaram de se encontrar em São Paulo. Ele foi, ela não. Pararam de se falar por um tempo.

No Orkut, ela encontrou ele dois anos mais velho. Ela pediu desculpas em um lindo testimonial. Ele aceitou. Passaram a trocar scraps. Ele era um figura popular, tinha criado a comunidade do Pearl Jam. Ela criou "Adoro Banho Quente", comunidade popular mas não tanto quanto sua rival "Odeio Banho Gelado". Combinaram de se encontrar em São Paulo. Os dois foram. Beijaram-se assistindo a "Era Do Gelo". Ou não assistindo. Começaram um namoro à distância.

Foram meses difíceis de MSN, até que inventaram o Skype. A vida mudou. Beijavam a tela, dormiam abraçados com ela. Ele fez uma música para ela e postou no YouTube. Ele ganhou seguidores no Twitter. A caixa postal do Hotmail lotou. Migraram para o Gmail e sua caixa infinita (ou quase).

Ela foi pro Rio de Janeiro fazer faculdade. Ele foi atrás. Entraram no Facebook quando não tinha quase ninguém. A foto de cada um era a cara do outro. Moravam juntos, dividiam o mesmo computador, compartilhavam os mesmos vídeos. O Gmail e sua estranha mania de não dar logout automaticamente fizeram com que ela lesse toda a sua correspondência. Ele ficou puto com o que ela leu. Ela ficou puta com o que ele tinha escrito. Quase terminaram.

Preferiram comprar outro computador. E cada um passou a ter uma senha. Riram muito no 9gag. Recusaram-se a entrar para o Google Plus. Hoje falam-se o dia inteiro no WhatsApp. E o Instagram deles é só fotos do bebê.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Amor e medo

Trechos extraídos do bom texto de José de Souza Martins publicada Domingo, 11 de Agosto de 2013, no Caderno Aliás.

Uma breve análise sociológica sobre o (pouco) que já se sabe sobre o caso do assassinato de toda uma família na Brasilândia, cujo maior suspeito é o mais novo dos mortos, um menino de 13 anos.



"Foi um ato de amor e medo. É, sociologicamente, a hipótese mais consistente que se pode formular à luz das evidências já divulgadas pela polícia."


"Os reflexos dessa identidade familiar, centrada na figura do pai herói, estavam dentro de casa, nos equipamentos de identificação do menino da Brasilândia: coleção de armas de brinquedo, o acesso às armas dos pais, o uniforme de PM que lhe antecipava imaginariamente um destino, a vida recatada e disciplinada, segundo o depoimento de parentes e vizinhos."


"A estrutura de sua família era mais do que perfeita, uma integrada família de três gerações, o que é cada vez mais raro: não só os pais jovens, mas também a avó materna vivendo ao lado."


"Mas os jogos eletrônicos violentos, entre seus brinquedos, sugere-o imaginariamente envolvido nos conflitos entre o bem e o mal da profissão dos pais. Também ele já havia sido alcançado, ainda que fingidamente, pela cultura da violência, que antes de invadir propriamente a vida real, invade o imaginário, não só de adultos, mas também de crianças."


"Nossos dias terminam e nossas noites começam com o noticiário de maldades que supostamente dizem o que esta sociedade é. Nada sobre nossas conquistas cotidianas na ciência, nas artes, no trabalho, nossa reconhecida generosidade e solidariedade, nossa competência para recomeçar quando tudo parece acabar."


"O menino da Brasilândia, após matar a família, foi à escola para a aula, conversou com a professora e recebeu um derradeiro abraço. Voltou para casa e matou-se depois de um afago nos cabelos da mãe, cujos fios foram encontrados em sua mão. Chorava. Optara por partirem juntos e juntos permanecerem para não ficar sozinho na mentira de um mundo dividido."

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mais um pouco de NADA

Trechos extraídos do livro ‘O manifesto do NADA na terra do NUNCA’, escrito por Lobão.

“Indígena, hoje em dia, usa calção Adidas, camisa de futebol e relógio de pulso, além de cocar, e deveria ser um cidadão comum, sair daquelas reservas miseráveis que antropólogos em toda a sua estupidez ideológica teimaram por transformar em museu com gente viva dentro.
O índio, na verdade, está louco pra poder estudar, estudar em faculdade, gerar riquezas e poder ser preso se ferir o código penal. Ser um subcidadão protegido pelo Estado é um tipo de piedade inadmissível.”


“(...) Convivamos naturalmente e em harmonia com todas as nossas matrizes: a negra, a branca e a índia. São todas nossas, sendo assim, desfrutemos delas com todos os seus defeitos e virtudes, pois todas nos são necessárias, dignas de nosso afeto, e excluir alguma delas só nos fará menores.”

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Manifesto do Nada na terra do Nunca



“O Brasil dos estupros consentidos na surdina,
dos superfaturamentos encarados como rotina,
dos desabamentos e enchentes de hora marcada,
dos hospitais públicos em abandono genocida,
dos subsídios da Cultura a artistas consagrados,
dos aeroportos em frangalhos, usuários indigentes,
dos políticos grosseiros, como sempre, subornados,
de cabelo acaju e seus salários indecentes,
da educação sucateada pelo Estado
em sua paralisia ideológica, omissa e incompetente.

Do racismo galopante, na internet
nas universidades e nas ruas,
com as suas manifestações hostis.
Da queima de índios e mendigos,
por meninos bem-nascidos.
Do apedrejamento, vilipêndio e morte
de mulheres, prostitutas e travestis.

E lá vamos nós, descendo a ladeira!
Rebolativos, minhóquicos, supersticiosos,
crédulos, inabaláveis, venais...
amantes de uma boa trapaça...
com nossa displicência carnavalesca espetacular
e os repetecos anuais dos feriados enforcados de destruição
[em massa.”
Trecho extraído do Prólogo: Aquarela do Brasil 2.0


“(...) Não podemos achar que resolveremos injustiças históricas implementando outras, nem sair por aí taxando de racista qualquer um que tenha uma objeção razoável às cotas raciais.Podemos muito bem ter os mesmos anseios de justiça e tolerância sem necessariamente concordarmos com os meios a serem aplicados.”
Trecho extraído do Capítulo 5: O Reacionário


“(...) O Brasil se firmará como o país do jabá, da propina, do mensalão, do caixa 2, da festa com o dinheiro público. Viveremos numa cleptocracia. E com um dos impostos mais escorchantes do mundo. E sem retorno algum. Tudo isso escancarado, explícito, na nossa cara! E nós?
Nós continuaremos a rebolar sorrindo, alegres, do jeito que você acha bacana. Nada anda por aqui sem um dinheirinho por debaixo do pano ou por dentro da cueca, irmão. Com essa obsessão mórbida de se apartar da cultura portuguesa e europeia, você fala como se fosse um cacique de verdade, um Oswald Guarini-Kaiowá de Andrade, vislumbrando altaneiro os horizontes varonis de uma pátria que, em sua triste atualidade de século XXI, está completamente falida de caráter, de saúde, de educação e de infraestrutura.”

Trecho extraído do Capítulo 8: A utopia antropofágica revisitada – 
Carta aberta de Lobão a Oswald de Andrade