segunda-feira, 27 de outubro de 2014

#MudaBrasil



Nos últimos dias, Lula fez discursos segregacionistas, preconceituosos e dignos de esquecimento.

Àqueles que, como eu, votaram e acreditaram no projeto apresentado por Aécio Neves, cabe agora não fazer o mesmo.

O país escolheu Dilma para governar o país nos próximos 4 anos.

Mas a oposição saiu fortalecida, com um grande líder e um grupo muito forte a sua volta.
Viva de democracia.

E o ‪#‎MudaBrasil‬ não acaba aqui.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Um domingo qualquer

Texto de MARILIA NEUSTEIN, publicado em seu blog 'Sem Retoques' - http://blogs.estadao.com.br/sem-retoques/

Quando eu era adolescente, detestava os domingos. Em especial, os fins de tarde dos domingos. A razão não era porque a segunda-feira se aproximava e eu teria de me preparar para a escola. O que não gostava era de lidar com a desaceleração. Diminuir a marcha, entrar em casa e ter de ir me preparando para “o fim do final de semana”. Porque, se pararmos para pensar, o domingo é um pequeno divórcio na semana. Apesar de ser oficialmente o começo, em nosso inconsciente coletivo é um fim. Além do que, depois de curtir a folga, a balada e o descanso… os programas de televisão me deprimiam, dando espaço para uma melancolia gratuita que só ia embora no decorrer da semana.



Com a idade, isso mudou. Parece até que o domingo é um dia feito só para os grandes. Aquela melancolia da adolescência se dissolveu completamente com a idade adulta. As ruas vazias e aquele ventinho de silêncio deram espaço para uma grande música gostosa. A música de domingo. Cheia de graça, essa tal domingueira. As manhãs, com suas bicicletas e seus cachorros. Almoços de família. Caipirinha com os amigos nos bares. Jogos de futebol. E “o fim”, de repente, tira essa tristeza estranha e inexplicável do caminho, dando espaço para um maravilhoso sentimento chamado calma. O fim do domingo é, para muitos, o momento de se preparar para a semana que começa. Devagarinho, mexer na geladeira, ver o que falta. Pensar na roupa de segunda-feira. Pegar um cineminha no final do dia, navegar sem objetivo na internet. Ler mais do que um capítulo de um livro. São coisas que, com muita sorte, acalmam. E calma é um sentimento bom, redondo, lunar. Domingo é isso. Não é o dia de decidir, de resolver, mas de desfrutar. O domingo não tem preconceito: aceita a preguiça de braços abertos. É o dia do sono, da leitura do jornal, do ócio. Do bacalhau da avó, de suco de tangerina, de siesta. É dia de aproveitar os sobrinhos. E é, acima de tudo, o dia do sofá. Convenhamos, o sofá é o melhor amigo do domingo. Ele abraça, acolhe, agrega. Começa na hora do almoço e só termina com o cair da noitinha.

Okay, sabemos que nem tudo é uma musiquinha suave. Lógico que, no fim do dia, muita gente tem de planejar coisas chatas, olhar a agenda, fazer cara feia para os compromissos, mas também – fazendo a pessoa que está de bem com a vida – é a chance de começar uma semana com o pé direito. E, no meio de tudo isso, ver, sem culpa, um pouco de bobagem na televisão.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Sem rancor

Texto de ELENA LANDAU, publicado na Folha de São Paulo


Há pouco mais de 20 anos o Brasil convivia com uma hiperinflação e o impeachment de um presidente. Era difícil ser otimista. Passadas duas décadas, o país é outro. O divisor de águas foi o Plano Real. Sem ele, e a estabilização econômica que se seguiu, as políticas de inclusão social não teriam terreno fértil para prosperarem nos anos seguintes.

A continuidade que Lula deu às políticas do FHC foi fundamental para que o país hoje possa se orgulhar dos ganhos na área social e sonhar com um salto de qualidade nas políticas públicas.

Infelizmente nos anos mais recentes, os erros na condução da economia e o isolacionismo da presidente estão colocando em risco as melhorias obtidas tão duramente. Dilma é nossa Alice, no País das Maravilhas. Se recusa a reconhecer os erros do presente, abusa da mentira nas estatísticas e inviabiliza um debate sobre o futuro.

Sua campanha tem sido marcada por uma obsessão em disputar legados e desconstruir os avanços do governo tucano. Com isso, tenta aprisionar e limitar as propostas da oposição a uma mera discussão numérica: quilômetros, leitos, creches etc.

O apego a uma agenda eleitoral populista e ultrapassada me surpreende, especialmente após os movimentos de 2013. Até parece que foi só por causa de 20 centavos. Os grandes temas que afligem o eleitor --saúde, educação, segurança, mobilidade-- não vêm encontrando muito espaço. Melhor seria uma discussão menos quantitativa e mais qualitativa. Não basta universalizar serviços, mas garantir igualdade no acesso e boa prestação.

A agenda que o candidato do PV colocou no debate da Band repercutiu bem. Trouxe temas sempre evitados: a reforma política e o aborto sob perspectiva da saúde pública.

Por enquanto, o novo está simbolizado em Marina, apesar da candidata participar da política há décadas. O que é bom. Ela vem surfando na onda na terceira via aproveitando o cansaço de todos com o Fla-Flu eleitoral que vivemos. Pode conseguir deslocar o foco da campanha e melhorar o nível das discussões.

A polarização partidária não é o problema, mas, sim, o discurso raivoso que o PT tem imposto ao debate político nos últimos anos.

O novo para mim é a aceitação do diferente. Escrevo como eleitora, não sou analista política e meu voto não é segredo. Sou filiada ao PSDB, mas não só por isso acho Aécio o melhor candidato. Tem meu voto pelo programa que apresenta, sua capacidade de gestão e sua equipe. E por falar do futuro de forma concreta, sem platitudes e escapismos.

O atual protagonismo de Marina é muito bem-vindo. Ela acaba de lançar seu programa de governo. Nas próximas semanas teremos a oportunidade de discutir ideias e sua implementação. Sem rancor.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O livro das mulheres extraordinárias

Xico Sá, genial!

Não é de hoje que as mulheres que se desmancham pelo romantismo escancarado e exacerbado de Xico Sá. A nova obra do escritor é uma prova disso: 'O Livro das Mulheres Extraordinárias' traz 264 páginas nas quais faz odes a 127 moças diferentes, de Lygia Fagundes Telles a Gaby Amarantos, passando por musas do momento, como Isis Valverde e Fernanda Lima.

Segundo ele, o que o guiou nas escolhas dos nomes foi o desejo - e o tesão - que sente por cada uma das beldades.

"Todas as mulheres do livro me despertam uma forma de tesão. Nem sempre o tesão intelectual (risos). Toda essa diversidade só prova que não há padrão em matéria de mulher. O que vale é a lei do desejo."


UOL: Em Paraty, na Flip, você levou pequenas multidões para onde foi e muitas dessas pessoas eram mulheres. Acha que pode virar uma espécie de Wando das letras?

Xico Sá: Seria a glória em vida.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O Estado não é um prolongamento da família

Trechos extraídos do texto de mesmo nome, de Michel Zaidan, que pode ser lido na íntegra no endereço http://www.brasil247.com/+5m2yz


"Uma família, por mais ilustre e importante que ela julgue ser, não pode se arrogar decidir os rumos de uma campanha presidencial. Muito menos os parentes de uma família. O Estado republicano é maior do que uma oligarquia familiar, seja o nome que ela carregue."

"A condução do processo sucessório da chapa do PSB e o tratamento dado a esse processo pela mídia e as instituições competentes em legislação eleitoral no Brasil e Pernambuco não podem fechar os olhos para essa "ação entre familiares e amigos" que tem sido a questão sucessória do falecido candidato. Ou existe partido, instituição pública, com estatuto, comando e diretório, ou uma sociedade conjugal ou familiar se sobrepõe à organização partidária e decide como vai ser a disputa e eleitoral. O luto de ninguém autoriza tal aberração institucional."

"A escolha de uma militante pentecostal, vinculada por votos de fé à Igreja evangélica Assembléia de Deus, por decisão do irmão e da esposa do falecido, reduz à disputa sucessória a quem acredita em Deus, no criacionismo, na Bíblia, no casamento heterossexual etc."

"A esfera pública-eleitoral dessas próximas eleições não pode se reduzir a um debate pobre, fundamentalista, conservador como esse, enquanto os problemas econômicos, administrativos, sociais e de infra-estrutura aguardam pacientemente por uma solução."

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A morte de Campos em 3 comentários

Por Caio Lafayette



1 - A democracia brasileira, ainda jovem, pode gabar-se de já ter visto quase tudo. De impeachment ao falecimento de um de seus candidatos em plena campanha eleitoral. A morte de Eduardo Campos - e seus assessores - de forma trágica, marcará a história dessa e de outras eleições que estão por vir. Mais que um grande líder, o Brasil perdeu um símbolo da mudança, uma alternativa viável para desfazer a polaridade PT x PSDB. Acredito que o pernambucano seria Presidente da República. Não agora, mas seria.


2 - Difícil compreender as várias reações após a tragédia. Mesmo admitindo que somos todos seres humanos e, por essência, diferentes, não compreendo que haja a possibilidade de sentimentos distintos quando de um acidente fatal com 7 pessoas, pais de família, com uma vida inteira pela frente. Comentários e análises de ordem política em meio à procura dos corpos, insinuações de armação e apontamento de culpados. Não entendo, realmente. Todos deviam agradecer a Deus por estarem vivos e rezar pelas famílias atingidas pelo acidente.


3 - Marina Silva herda a vaga de Campos e inicia o processo com certo favoritismo. Imaginei, até, que por conta do desconhecimento real da história da candidata e da comoção natural em torno da recente tragédia, apareceria melhor na primeira pesquisa. Ela ainda representa a esperança de uma 3ª via forte, mas creio que por pouco tempo. Por ser competitiva, ao contrário de 2010, terá o seu histórico político, partidário e familiar exposto em rede nacional. Isso revelará seu conservadorismo, sua forma de fazer igual ou pior - ao contrário do que tenta vender. Arrisco dizer que terminará com menos do que os 19 milhões de votos de 2010. Chute. O PSB perdeu a chance de alçar quadros históricos, como Luiz Erundina, que, no mínimo, representariam melhor o anseio por mudança ao qual a chapa tenta se posicionar.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Agosto

"Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu sem o menor pudor, invente um. [...] Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados."

Caio F. Abreu

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Reflexo

Era 7h40m quando acendeu o visor do celular pela primeira vez na manhã. Exatamente o mesmo horário de todos os dias - faltavam cinco minutos para o despertador soar. Mas nenhum aparelho eletrônico tinha a programação melhor que o próprio corpo dela, que todo dia despertava apenas com o poder da mente, no mesmo exato horário.

- Você acha que estou velha? Eu só posso estar velha!

Estava se sentindo ótima naquele dia, com uma disposição animadora.

- Não me preocupar? Pra você é fácil falar...
- Não é você que diz que velhos que acordam cedo? Pois é. Acordei antes mesmo do despertador mais uma vez.

Olhou para o teto e em todo o redor, analisando o ambiente, satisfeita com o novo papel de parede vintage combinando com a mobília charmosamente envelhecida.
Sorriu. Era uma espécie de ritual inconsciente: despertar, analisar o ambiente e sorrir satisfatoriamente por ter se tornado a exata pessoa que sempre quis ser.

- Não entendo essa sua mania de mudar de opinião.
- Fui muita dura com você? Fui grossa? Ando muito ranzinza, não é mesmo? Deve ser sinal da idade.

Gastou vários minutos desfrutando de um relaxante banho, e mais alguns secando os cabelos. Depois, passou um creme no rosto, tão macio, pele lisa para uma mulher beirando os 40 anos.


- Você viu essas marcas em meu rosto? Como pode dizer que não estou velha?
- Você fala isso porque não conhece a Flávia.
- É, ela vem aqui em casa às vezes, lembra dela?
- Ai que ódio tenho da Flávia. 5 anos a mais que eu, 5 vezes menos rugas. Pode?
- Você está falando isso só pra eu não ficar cabisbaixa.
- Não adianta, eu não confio mais em você.

Hora de se vestir. Teria de ser uma roupa especial, combinando com o ótimo humor em que se encontrava naquele dia.

- Pra variar, não tenho roupa pra hoje.
- Que blazer? Aquele vermelho? É horrível!
- Gostava sim. Não posso mudar de opinião? Você muda toda hora.
- Sempre as mesmas desculpinhas.
- Tudo bem, chega de se fazer de vítima e me ajuda a pensar em uma roupa pra usar hoje.

Escolheu um blazer vermelho, saia preta pouco acima do joelho, e scarpin preto, salto respeitosamente alto, que a fazia sentir imponente, poderosa. Assim como o era. Vaidosa, porém não narcisista: aplicou maquiagem básica, modelou os cabelos, juntou os pertences críticos na bolsa e saiu da adorável casa que habitava sozinha.
Após estacionar o carro na vaga que já a esperava, adentrou o ambiente de trabalho. Todos que lá jaziam a saudaram com um carinho respeitoso. Era a chefe dali, mas as pessoas a viam como uma líder: Respeitada, ao invés de temida.

- Me preocupo tanto com a roupa e com as rugas pois, quando chego lá, fica todo mundo me olhando.
- Duvido.
- Eu os conheço melhor que você. Estou falando que duvido. Não tem respeito nenhum. É inveja mesmo. E puxa-saquismo muitas vezes. Sempre tem um querendo me dar uma rasteira.

Respondeu às saudações, se dirigindo para sua sala particular, o ambiente mais acolhedor do mundo para ela, após a própria casa. Uma parede de vidro planejada com a vista para o campo que se escondia nos fundos do galpão, contrastando com a cidade cinza do outro lado; luminárias que pendiam no teto em formatos diferentes; plantas em grandes vasos, textura de madeira nas paredes de concreto. A mesa era pequena - mesas grandes sempre significavam abrigo para muitos problemas. Preferira resumir tudo em um pequeno quadrado abrigando apenas um laptop, alguns vasos com flores e um pequeno rádio, sempre ligado, revelando seleções incríveis de MPB, seu gênero favorito. Trabalhar ouvindo música era como praia e Sol, combinação fundamental para fazer fluir qualquer coisa.

- Coloquei a parede de vidro porque li em uma revista que ajudava na integração da equipe. Técnica furada de RH.
- É verdade, me arrependo.
- Mas se eu mandar trocar agora todo mundo vai achar estranho.
- Viu, mudou de ideia de novo.
- Fala a verdade, vai... Acha que devo trocar?

Quando ela recostava em sua poltrona macia, fechava os olhos por alguns segundos, sentia toda a perfeição e harmonia do Universo, como se o mundo fosse perfeito, e ela fosse uma dádiva ambulante.

- Pra falar a verdade, não queria sair de casa hoje.
- Claro que não é só pra ficar conversando com você.
- Estou brincando. Você aí no espelho é minha melhor amiga, você sabe.
- Que Flávia, que nada! Só você me entende.
- Tenho que ir agora, tudo bem?
- Eu também não queria. Mas estou atrasada. E já basta o tanto que me encaram quando chego, não quero dar mais motivos.
- Até mais.

Antes de se jogar em mais um dia de trabalho.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O fechamento da Santa Casa de SP


"A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, considerada o maior hospital filantrópico da América Latina, suspendeu nesta terça-feira (22) o atendimento de emergência no pronto-socorro. 

O hospital alegou que não tem mais dinheiro para comprar materiais e medicamentos" 


Por Caio Lafayette

A notícia é recente, de ontem, mas, ao contrário do que alguns veicularam, não é surpresa.

Não é de hoje que a tabela do SUS não passa por correção de valores. Para se ter uma ideia, o repasse feito pelo Ministério da Saúde para casos de parto normal é de R$ 443, sendo que o custo mínimo para esse tipo de parto é de R$ 900. Outro exemplo se dá na diária da UTI: o SUS paga R$ 478; ela custa R$ 1.000.

Há 12 anos, o Governo Federal participava com 60% do total do SUS no Brasil. Nos últimos anos essa participação caiu para menos de 45%.

Para tentar minimizar o déficit, o Governo do Estado de São Paulo investiu, entre 2011 e 2013, R$ 1,8 bilhão nas santas casas, e prevê o investimento de mais R$ 1 bilhão no ano de 2014. Somente à Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, serão repassados R$ 168 milhões este ano, totalizando R$ 345 milhões desde 2011.

Além disso, as santas casas e os hospitais filantrópicos contam com o programa Saúde SP, uma linha de crédito especial para quitação de dívidas e aquisição de equipamentos hospitalares, em parceria com a Desenvolve SP.

Fica, então, a preocupação com relação ao tratamento que o Ministério da Saúde dará ao caso. Não adiantam mais médicos apenas, sejam eles do país que forem. O que a saúde no Brasil precisa é de gestão. E atualizar a tabela do SUS se faz item prioritário, ou então, veremos mais hospitais sendo fechados.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A pior das perdas


Sobre a morte de João Ubaldo Ribeiro, postagem nenhuma seria suficiente pra homenageá-lo da forma que eu gostaria.

Aprendi a gostar da política - e não falo de política partidária - com os textos de João Ubaldo, em seus livros e jornais.

Por falar em jornais. aprendi a lê-los pra poder acompanhar seus textos aos domingos, no Estadão.

Tentei escrever como ele tantas e tantas vezes e descobri o óbvio: jamais seria capaz.

Me encantei com a forma com que ele conseguia tratar dos problemas mais complexos da nossa sociedade de forma atual e inserindo tais problemas em um contexto literário, com personagens incríveis, bem construídos e inesquecíveis.

Por nada ser suficiente, a forma menos pior que encontrei de homenageá-lo é publicar mais um de seus textos. No caso, o último escrito, que seria publicado este Domingo, no Estadão. E que bom seria se todos os dias tivéssemos um de seus textos para ler, por toda a eternidade...


O correto uso do papel higiênico
Por João Ubaldo Ribeiro

O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28%, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.

Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.

Agora me contam que, não sei se em algum Estado ou no País todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabete e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o Estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.

Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma – chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote –, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.

Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A pátria de chuteiras - Nelson Rodrigues


O homem brasileiro e a sociedade

"O ser humano pensa demais e é pena, pois a vida é, justamente, uma luta corporal contra o tempo. Repito: - o ser humano vive pouco porque pensa muito."



"Em 50, não foi apenas um time que fracassou no Maracanã. Foi o homem brasileiro, como em Canudos. Em 58, quem venceu? O Brasil. Quando Bellini apanhou o caneco de ouro, era o novo homem brasileiro que se proclamava."

"Amigos, vamos reconhecer com sóbria e exata autocrítica: - não há, presentemente, no mundo, uma figura humana tão complexa, tão rica, tão potencializada como o brasileiro. Era o óbvio, que nem todos enxergam: - o maior homem da época é o do Brasil."

"Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana. O homem do Brasil entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem."

"O brasileiro reage ao bem que lhe fazem com uma gratidão amarga e ressentida."

"Admiramos mais os defeitos ingleses do que as virtudes brasileiras."

"E se uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de 'complexo de vira-latas'. Estou a imaginar o espanto do leitor: - 'O que vem a ser isso?' Eu explico. 
Por 'complexo de vira-latas' entende eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol."

"Em 58, na véspera de Brasil x Rússia, entrei na redação. Tiro o paletó, arregaço as mangas e pergunto a um companheiro: - 'Quem ganha amanhã?'Vira-se pra mim, mascando um pau de fósforo. Responde: - 'Ganha a Rússia, porque o brasileiro não tem caráter.'
Eis a opinião dos brasileiros sobre os outros brasileiros: - não temos caráter. Se ele fosse mais compassivo, diria: - 'O brasileiro é um mau-caráter.' Vocês entenderam? O mau-caráter tem caráter, mau embora, mas tem. Ao passo que, segundo meu colega, o brasileiro não tem nenhum."

"No fundo, no fundo, somos assim. O homem brasileiro não acredita em sim mesmo."




Os campeões e o futebol

"E mesmo fora do futebol, o europeu faz uma imitação da vida, enquanto que o brasileiro vive de verdade e ferozmente. Ninguém compreenderá que foi a nossa qualidade humana que nos deu esta Copa tão alta, tão erguida, de fronte de ouro. E mais: - foi o mistério de nossos botecos, e a graça de nossas esquinas, e o soluço dos nossos cachaças, e a euforia dos nossos cafajestes."


"Eu quero terminar dizendo: - quando, após a partida de anteontem, o capitão inglês ergueu as mãos ambas a Jules Rimet, o urubu de Edgard Allan Poe declarava aos jornalistas credenciados: - 'Nunca mais, nunca mais!' E, de fato, como as outras Copas vão ser disputadas em terreno neutro, nunca mais a Inglaterra vai conseguir impor seu futebol sem imaginação, sem arte, sem originalidade. E o cronista que foi nos dois pés e voltou e voltou de quatro que se cuide. O mesmo urubu de Edgard Allan Poe diria que não levantará nunca mais, nunca mais, nunca mais."

"O campeões do mundo deviam ser incompráveis."

"Do mesmo modo, nenhum clube se lembraria de vender um presidente, embora o presidente seja uma figura infinitamente menos essencial que um campeão do mundo. Eis o ponto nevrálgico da questão: - clube não é boteco para vender tudo. Ele possui coisas que não venderia nem por todo o ouro da Terra."

"O campeão não é apenas um jogador de futebol. É um herói: nenhum clube, nenhum povo tem o direito de vender seus heróis. Nem o herói tem o direito de vender a si mesmo."

"Deslumbrante país seria este, maior que a Rússia, maior que os Estados Unidos, se fôssemos 75 milhões de Garrinchas."

"Mas para fazer seu futebol impessoal e coletivista, o caro Chirol terá de preliminarmente mudar o homem. Para isso, terá de pedir à diretoria do clube uns vinte séculos ou mais. Note-se, porém: - antes dele, Cristo tentou a mesma coisa e fracassou. Os pulhas estão aí, impunes e bem sucedidos."

"No futebol, a apoteose está sempre a um milímetro da vaia."

"Os idiotas da objetividade querem colocar a partida em seus termos táticos e técnicos."

"Se me perguntarem o que deverá fazer a seleção para ganhar a Copa, direi, singelamente: - 'Não nos ler.'"

"A seleção é a pátria em calções e chuteiras."

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A Copa do Mundo em 10 momentos

1 – O ANÚNCIO

Em Outubro/2007 veio o anúncio que tanto se esperava, mas já se sabia: o Brasil sediaria a Copa do Mundo de 2014. Tanta certeza se dava por conta do rodízio que a Fifa decidiu adotar, levando o campeonato mundial a todos os continentes, sendo 2014 a vez da América, cujo único candidato a sede era o Brasil.

Junto com o anúncio, veio a promessa subentendida de grandes investimentos em infraestrutura, turismo, telecomunicações, além dos estádios, claro. Das 18 pré-candidatas a cidades-sede, ficaram 12. O número foi exagerado, as distâncias enormes e algumas das cidades muito mal escolhidas. Assim começou a Copa no Brasil.


2 –AS CRÍTICAS E A DESORGANIZAÇÃO


A caminhada até a abertura do mundial foi marcada por críticas e desentendimentos entre a Fifa, o Governo Federal e seu Comitê Organizador.

Jerome Valcke, Secretário Geral da Fifa, se tornou figura constante nos noticiários do país, quase sempre criticando a organização e os atrasos nos estádios. E olha que sua preocupação estava, principalmente, com a questão esportiva. Do ponto de vista de infraestrutura, quase nada foi feito e não é exagero afirmar que o legado deixado pela Copa do Mundo é quase zero.


3 – A ABERTURA E O PRESSÁGIO DAS FALHAS DE ARBITRAGEM


Críticas à parte, o espetáculo começou no dia 12 de Junho. No jogo inaugural, vitória do Brasil, como deveria ser. Mas houve muita polêmica com relação ao pênalti marcado em Fred pelo juiz da partida. Realmente, não houve pênalti. Mas o erro na abertura só veio para nos avisar o quão ruim seria a arbitragem durante todo o mundial. Juízes erraram quase sempre, permitiram jogadas violentas sem mostrar cartões – será que por orientação da Fifa? - anularam gols legais, validaram gols ilegais... um verdadeiro desastre, coroado pelo Senhor Nicola Rizzoli, na final, com péssima atuação.


4 – O NAUFRÁGIO DA CAMPEÃ


A imagem da atual campeã Espanha sucumbindo no primeiro jogo frente a uma até então desacreditada Holanda será um dos retratos mais lembrados desta Copa. A derrota representou muito mais que não somar pontos na estréia. Foi a pior derrota de uma campeã em seu primeiro jogo após o título, significou, no mínimo, uma reflexão sobre a efetividade do estilo de jogo adotado pelos espanhóis há anos – o Tiki-Taka, manchou a imagem de alguns ídolos nacionais, como é o caso do goleiro Casillas, e culminou em uma eliminação precoce, já na segunda partida, contra o forte Chile.

Também ficarão na memória belo gol de Van Persie, de cabeça – pra mim, o mais bonito da Copa – e a primeira das tantas boas atuações de Robben – pra mim, o melhor jogados do campeonato.


5 – A SURPRESA CHAMADA COSTA RICA



Ela caiu em um grupo com três campeãs mundiais, fato inédito graças ao esdrúxulo critério da escolha de cabeças-de-chave adotado pela Fifa. Muito se falou que os classificados do tal grupo da morte, com Itália, Uruguai e Inglaterra, poderia ser definido no saldo de gols e quem fizesse mais gols na Costa Rica poderia se beneficiar. Pois o time da América Central bateu os bi-campeões uruguaios na estréia, os tetra-campeões italianos na segunda partida e empataram com a campeão Inglaterra no último jogo. Passaram pelos gregos nas Oitavas de Final e só caíram nas quartas, contra a Holanda, nos pênaltis.

Destaque para o goleiro Navas – pra mim, o melhor da Copa.


6 – LUIS SUÁREZ


O grupo da morte teve uma Costa Rica surpreendente, um jogaço entre Uruguai e Inglaterra, mas também teve a mordida de Suárez em Chiellini. O jogo ainda estava zero a zero quando ocorreu o fato. O juiz não viu – ou viu e não o puniu. No fim, Uruguai venceu, se classificou e eliminou os italianos. Mas foi o fim da linha para o melhor jogador do time – e um dos melhores do mundo. Por reincidência, a Fifa puniu o atacante Uruguai com 9 jogos pela seleção de seu país e 4 meses longe dos gramados. Considero a punição exagerada.

De toda maneira, a imagem ficará marcada na história das Copas.


7 – A COLÔMBIA SUL-AMERICANA


A Colômbia foi Colômbia. Ou foi Brasil? Vestiu amarelo, jogou bonito, encantou e teve o segundo melhor jogador da Copa, que usava a 10 nas costas: James Rodriguez. Representou da melhor maneira um futebol sul-americano com grande destaque em todo o mundial. O Chile foi forte como poucas vezes se viu; Brasil e Argentina foram semi-finalistas; o Uruguai passou pelo grupo da morte e depois perdeu para a própria Colômbia.

O bom técnico José Pékerman conseguiu aliar o já conhecido futebol técnico e alegre dos colombianos a uma disciplina tática incomum às seleções daquele país. O resultado foi um 5º lugar inédito.


8 – MINEIRAZO


Um time que estreou fazendo um gol contra, passou pela primeira fase com certa dificuldade, não teve preparo psicológico para enfrentar um Chile tradicionalmente freguês. Um capitão que chorou na hora da decisão, uma emoção descontrolada na hora de cantar o hino, um centroavante inexistente. Um Hulk apenas esforçado. Um único craque que foi tirado da Copa por uma entrada imprudente de um colombiano. Ligação direta entre defesa e ataque. Um time sem padrão tático.

Ainda assim, um semifinalista.

Melhor que não fosse. Foram sete gols sofridos contra a Alemanha. Quatro deles em apenas seis minutos. Reflexo de uma convocação muito mal feita, falta de opções pra formar uma equipe sem seu principal jogador – Neymar – e do descontrole psicológico demonstrado desde o início do mundial.

O Brasil deixou a Copa em seu país de forma melancólica, deixando o sentimento de necessidade de mudança, não apenas da seleção, mas do futebol brasileiro.


9 – ARGENTINA EM CASA


“Brasil, decime que se siente / quedar afuera del mundial. / Te juro que aunque pasen los años, / nunca nos vamos a olvidar.”

Se antes havia a confusão em todo o mundo sobre qual a capital do Brasil, agora todos devem achar que é mesmo Buenos Aires.

Muito mais confortáveis que o próprio anfitrião, a torcida argentina fez do Brasil sua casa e apoiou sua seleção até a final, o que não ocorria desde 1990.

O time argentino quase saiu do Brasil campeão vencendo por pouco ou até mesmo empatando, sem grande brilho das principais estrelas – inclusive Messi, escolhido injustamente o melhor da Copa – e com um sistema defensivo coletivo, sólido, que garantiu o sucesso da equipe.

Faltou a taça. Mas os ‘hermanos’ fizeram a festa no Brasil.


10 – É TETRA!


Foi feliz do começo ao fim. Assim podemos resumir a Alemanha da Copa 2014.

Chegou apontada como uma das favoritas e, sem dúvida, apresentando o melhor futebol dentre as 32 participantes do mundial. Interagiu com o povo brasileiro, tanto na estadia na Bahia quanto nas redes sociais. Conquistou a simpatia de todos, mesmo após a goleada em cima da seleção brasileira. Foi perfeita taticamente, compacta, decisiva. Mostrou equilíbrio no elenco, com as melhores opções de banco e bons jogadores em todas as posições.

Acima de tudo isso, se preparou para ser vencedora. Após a crise pela qual passou nos anos 90 – futebolisticamente falando – a Federação Alemã investiu pesado na formação de atletas, em reforçar ainda mais a liga nacional. Formou uma geração que seria lembrada mesmo sem o título. Mas nada mais justo que alcançar o tetra. A seleção mais regular da história das copas ainda estava atrás de Brasil e Itália em títulos. Agora não mais. Apenas o Brasil segue à frente. Talvez, por apenas quatro anos, afinal, muitos dos agora atuais campeões deverão estar na Rússia em 2018.

Em suma, a ‘Copa das Copas’ teve média de gols alta, grandes partidas, futebol ofensivo com o equilíbrio defensivo, zebras, tradição, goleiros incríveis, técnicos mudando jogo e a Alemanha campeã com muitos méritos.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Não é você que está deixando de pagar, são todos que estão pagando

"Inspeção veicular será retomada em SP sem taxa"



A Inspeção Veicular foi tema recorrente na campanha para a Prefeitura de Sâo Paulo, em 2012. E o vencedor da disputa, Fernando Haddad, prometeu acabar com a taxa cobrada para a inspeção e começa a tirar do papel a promessa.

Mas... isso é bom?

O discurso é bastante atraente: acabar com a taxa da inspeção veicular. Onde já se viu, pagamos tanto imposto, não é mesmo?

Acho que não é bem assim.

O não pagamento da taxa de inspeção veicular por parte daqueles que possuem um bem - no caso, o carro - significa que todos os paulistanos, inclusive aqueles que não têm um automóvel, estão arcando com a tal vistoria.

Isso significa:

1- um privilégio aos que utilizam o transporte individual em detrimento ao transporte público;

2- parte do orçamento da Prefeitura, que poderia ser utilizado na execução de políticas públicas para toda ou maior parte da população, será destinado ao uso de parte dela - aqueles que possuem um automóvel;

3- não é mais o dono do bem que paga à empresa pela inspeção, é a Prefeitura, com o nosso dinheiro. Você acha mesmo que isso vai dar certo?

A desmilitarização da Polícia Militar



O 'Entre Aspas' 08/04/2014, na Globo News, discutiu a desmilitarização das Polícias Militares brasileira.

O programa foi curto - uma pena, mas valeu a pena por tratar do tema sem o peso ideológico com que muitas vezes é tratado, dando prioridade à análise do conceito 'desmilitarização' e de possíveis soluções para os problemas da segurança pública que não são exclusividade de nenhum Estado, mas de todo o país.

Assisti-lo deveria ser obrigatório tanto aos adeptos do 'bandido bom é bandido morto' quanto àqueles que acham que a polícia é o maior problema da humanidade.

Segue o link: http://globotv.globo.com/globo-news/entre-aspas/v/entre-aspas-discute-a-desmilitarizacao-das-policias-militares-brasileira/3269039/

Pensadora Contemporânea

Sobre a questão polêmica que trata Valesca Popozuda como grande pensadora contemporânea...



...fico com a resposta do professor: "A partir do momento em que você vê várias pessoas famosas dando beijinho no ombro em referência à música de Valesca Popozuda, isso mostra que ela acabou construindo um conceito".

Ainda, perguntado se foi irônico ou se considera a cantora uma grande pensadora contemporânea, o professor afirma que a considera uma pensadora: “se ela interfere na sociedade e influencia a sociedade com o que ela pensa, sim (a considero uma pensadora)”.

No mais, fica a mensagem da imagem pra vocês.

Por que não me ufano?

Por Caio Lafayette

Porque bom mesmo é só aquilo que gostamos. Insistimos em falar mal do BBB e mantemos a TV ligada. Porque somem aviões. Padres se penduram em balões. Santas aparecem em janelas.

Porque não entendemos o que significa Estado laico. Confundimos o ser humano com o cidadão. Não sabemos o que é democracia. Achamos que ‘de direita’ é quem defende o regime militar e que ‘de esquerda’ é comunista que come criancinhas.

Porque nivelamos tudo por baixo. Porque furamos fila e criticamos o corrupto. Porque achamos lindo o ‘jeitinho brasileiro’. Porque tentamos resolver antigas desigualdades com mais desigualdades. Porque somos parte de muitas maiorias e tantas outras minorias, mas nunca pensamos em nos fazer iguais. Porque temos nojo de pobre, odiamos ricos e achamos a classe média burra.

Porque é moda incendiar ônibus. Matamos quem torce pra outro time. Porque percebemos que não estamos preparados para sediar uma Copa do Mundo agora, em 2014, quando o anúncio foi feito em 2007. Porque queremos hospitais e não estádios, mas votamos igualzinho a cada dois anos.


Porque política virou profissão. E os parlamentos cemitérios de sub-celebridades. Porque o Deputado Federal mais votado da história do nosso país é o Tiririca. O Paulo Maluf é sempre reeleito. Porque o Sarney era, até bem pouco tempo atrás, Presidente do Senado. E foi substituído pelo Renan Calheiros. E o Senador do meu Estado, aquele gente boa que canta Racionais MC’s, votou em Calheiros. Achamos o Lula legal só porque a mãe dele nasceu analfabeta e a Dilma só porque ela diz que por trás das crianças há um cachorro oculto.

E vocês ainda perguntam por que não me ufano?

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Vambora

Por Caio Lafayette


De um lado do bar, ele. Apoiado no balcão, onde sempre costumava ficar. Ali, evitava, por vezes, fila. Criava intimidade com quem geralmente mais precisava na noite: o garçom. Tinha uma boa visão de todo o ambiente, mesmo que isso pouco acrescentasse. Só não estava só pois a cerveja sempre o acompanhava.

Do outro do bar, ela. E mais duas amigas. Uma, loira e falante. A outra, morena como ela. Ela, muita mais linda que a outra morena. Na mesa, bebidas típicas de mesas que só têm mulheres: Margarita, Smirnoff Ice e um copo vazio, que devia ter tequila há alguns minutos atrás.

Ele era amigo do guitarrista. Estudaram juntos na faculdade. Faziam parte do mesmo grupo de trabalhos universitários e ainda assim continuaram amigos. Ele seguiu a profissão que a formação supunha. O amigo guitarrista preferiu a guitarra.

Ela era amiga da loira falante que, por sua vez, era a ficante da noite do vocalista. Quase não foi naquela noite. Recém solteira, ainda não sabia aproveitar bem os prazeres da liberdade. Nem sabia se liberdade era sinônimo de sair à noite com as amigas. Mas foi. Mais pra acompanhar a amiga do que por convicção.

Ele a viu, do outro lado do bar.

Ela chamou o garçom, pediu mais uma tequila.

Ele pediu mais uma cerveja.

Ela olhou no celular. Mensagem? Não, queria saber que horas a banda entraria pra tocar.

Ele olhou no celular. Quase sem bateria. Celulares modernos são assim mesmo. Nunca dá pra contar.

Ela dividiu a tequila com as amigas. Sorriu. Ainda que aquilo não fosse a tal liberdade, pelo menos a noite estava divertida.

Ele continuou a observá-la.

Ela se levantou e começou a caminhar. Atravessou o bar. Em direção a ele?

Ele, então, observou mais. Saia preta um pouco acima dos joelhos. Blusinha branca. Salto alto. Ainda assim, continuava baixinha. Linda.

Ela passou por ele, sem notá-lo. Foi apenas ao banheiro.

Ele olhou pra mesa onde estavam as amigas. A loira continuava falando.

Ela voltou e parou no balcão. Pra pedir outra tequila? Queria saber que horas a banda começava a tocar.

- Eles costumam entrar só depois da meia-noite. – se adiantou ele, ao funcionário da casa.

Ela sorriu. Uma graça.

- Obrigada.

- Não vai pegar mais uma tequila?

Ela sorriu. Sem graça.

- Por quê?


- Curiosidade. – disse ele, percebendo que agora ela saberia que estava sendo observada. E isso era ruim?

Ela voltou pra mesa. Tomou a palavra da loira. Será que estava falando dele?

Ele chamou o garçom. Mandou entregar uma dose de tequila na mesa dela. Aproveitou e pediu outra cerveja.

Ela recebeu a dose de tequila. Olhou pra ele e sorriu, agradecida. Pediu uma caneta e escreveu algo em um guardanapo.

Ele leu: ‘vem sentar aqui com a gente’. Pensou duas vezes por pura teimosia. Na verdade, queria ir, claro. E foi.

Ela percebeu a movimentação dele. Sinalizou com a cabeça para as amigas.

Ele sentou. Se apresentou. Nada de diferente. Nome, idade, profissão, amigo do guitarrista.

Ela observou a loira tomar a palavra e se apresentar como ficante do vocalista.

Ele não deu muita bola pra loira. Sorriu gentilmente pra outra morena. Olhou com firmeza pra ela.

Ela perguntou sobre a banda. Sobre o amigo guitarrista. Sobre a profissão.

Ele perguntou o que ela fazia. Só estudava.

Ela olhou mais uma vez no celular. Ainda faltavam vinte e poucos minutos pra meia-noite.

Ele falou com ela. Ela falou com ele. A loira falava, pra ninguém. A outra morena não falava nada.

- Faz muita questão de ver a banda?

- Não. – respondeu ela, sem titubear.

- Vamos pra outro lugar? – perguntou ele, titubeando.

Ela topou.

Ele se surpreendeu.

Ela se levantou e se despediu das amigas.

Ele também se despediu.
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Atualmente, ele continua freqüentando os shows da banda do amigo guitarrista. Mas não fica mais apoiado no balcão. E tem outra companhia além da cerveja.

Ela, descobriu que sinônimo de liberdade é estar feliz . Virou amiga do guitarrista, também. E toma tequila em todos os shows da banda do novo amigo.

A amiga loira está ficando com o vocalista de outra banda. E a amiga morena não se sabe. Nunca mais atendeu ligação de nenhuma das duas.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Devo deixar de assistir a Woody Allen?

Eu não vou deixar!


Texto de: MICHAEL KEPP, 63, jornalista americano radicado no Brasil, é autor do livro "Tropeços nos Trópicos"

Tradução de PAULO MIGLIACCI



Devo deixar de assistir a Woody Allen?

Se esquadrinharmos a moralidade dos artistas, o que restará? Sou judeu, mas ouço Wagner, ainda que ele fosse antissemita virulento

O tribunal da opinião pública dos Estados Unidos, no geral, ignorou a mais interessante questão despertada pela reabertura do caso de suposto abuso sexual de Woody Allen contra a sua filha adotiva Dylan, quando ela tinha sete anos, em 1992.

Alimentado pela mídia, aquele tribunal parece mais fascinado pela questão de ele tê-la molestado mesmo, ainda que Allen jamais tenha sido formalmente acusado. O público preferiu colocá-lo em julgamento a fazer a pergunta mais interessante: se ele a molestou, será que eu deveria deixar de assistir aos seus filmes? Essa questão acarretaria um desafio moral e filosófico: é possível separar o artista de sua arte?

Todas essas questões ressurgiram duas semanas depois que Allen recebeu um Globo de Ouro especial pela sua obra (48 filmes), quando Dylan, 28, escreveu uma carta ao "New York Times" na qual pede a nós e a atores dos filmes dele que ouçam sua acusação antes de responder à pergunta: "Qual é seu filme de Woody Allen favorito?".

Com a pergunta intimidante, ela pretendia fazer com que as pessoas se sentissem culpadas ou ao menos pensassem antes de assistir aos filmes de alguém que ela alega tê-la molestado, antes de trabalhar neles ou antes de honrá-los.

A cantora Carly Simon reagiu à acusação afirmando que nunca mais assistiria a um filme de Woody Allen. Nicholas Kristof, colunista do "New York Times", questionou: "Será que o padrão para premiar alguém não deveria incluir honradez indisputável?".

Ou, para reformular a pergunta de Kristof, "não é impossível separar o artista de sua arte?". E minha resposta a isso é "não". Por quê? Porque se não erigirmos essa barreira ética, nos privaremos da capacidade da arte para iluminar as nossas vidas. Se esquadrinhássemos a moralidade de todos os artistas, que arte restaria para apreciarmos?

Eu sou judeu, mas ouço as óperas de Wagner, ainda que ele fosse um antissemita virulento, e adoro Sinatra, a despeito de suas conexões com a máfia. Admiro a pintura de Caravaggio, ainda que ele tenha assassinado um rival amoroso em uma tentativa de castrá-lo.

Por quê? Porque a música raramente é ideológica. E as pinturas de Caravaggio nada têm a ver com seu crime. Concordo com Oscar Wilde, segundo quem "todo retrato pintado com sentimento é um retrato do artista, e não do modelo".

Mas também acredito que quando acontece de o trabalho de um artista refletir seus preconceitos ou impropriedade moral, o que não ocorre nos exemplos citados anteriormente, é nossa obrigação moral atribuir-lhe um valor menor.

O exemplo clássico é o documentário "Triunfo da Vontade", de Leni Riefenstahl, que ao registrar um congresso nazista em 1934 usou técnicas cinematográficas inovadoras para glorificar Hitler. Sim, o filme é uma obra de arte, mas menor, porque também é propaganda nazista.

Os filmes de Allen não refletem seus preconceitos ou qualquer impropriedade moral. Eles apenas mostram suas neuroses. Personagens frágeis e comicamente ansiosas buscam a companhia umas das outras em um mundo confuso e de escolhas restritas. E as protagonistas cuja complexidade ele ilumina melhor são as mulheres. Meu mundo seria menor sem elas.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Em homenagem a Eduardo Coutinho

O cineasta Eduardo Coutinho faleceu ontem, aos 80 anos.

Em forma de homenagem, segue trailer de um de seus documentários, que está na minha lista dos 20 filmes favoritos: 'Jogo de cena'.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A nossa diferença

"Alckmin cria Comitê para apurar suposto Cartel"




Enquanto nós defendemos a apuração de fatos e a punição àqueles que forem de direito...


"Após sucesso de site de Genoino, PT fará campanhas para Dirceu, Delúbio e Cunha."


... eles arrecadam dinheiro pra ajudar bandido.


Simples assim!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Rolezinho

Algumas pinceladas no texto de Leandro Beguoci pra falar dos 'Rolezinhos'.



"De fato, as reuniões de lazer e a reação a elas foram contaminadas pelo debate político que acontece nas áreas de classe média e classe média alta. Elas foram simplificadas, estereotipadas. O debate se reduz aos exageros, criando adversários irreais e estereotipados: ou as pessoas são elitistas ou comunistas. Mas o mundo real, bem, esse é bem mais complicado."

"Ninguém ouve ou sabe o que esses jovens pensam, mas praticamente todo mundo no Facebook, no Twitter, em algumas colunas nos jornais e nas revistas sabe o que eles deveriam pensar. Ninguém sabe qual a intenção que eles têm com esses eventos, mas, do lado de cá do rio, todo mundo já tomou as decisões por eles."

"Os rolezinhos são uma versão, amplificada pelas redes sociais, do que sempre aconteceu nas periferias da cidade.
E, ao amplificar o volume, eles também chamaram a atenção."

"(..) a desigualdade em São Paulo não se dá apenas na base centro-periferia, no macro. Essa divisão também se dá dentro de cada área da cidade, no micro. Em cada periferia há um centro urbanizado, com uma classe média ou média alta que prefere ficar nestes bairros por razões que só as pessoas que moram lá sabem. Além disso, em algumas áreas do centro expandido, delimitadas pelos rios, há regiões e famílias muito pobres que moram em cortiços, prédios antigos, mas trabalham perto das casas delas."

"A reação das pessoas que frequentam os shoppings das periferias aos rolezinhos não passa nem pela tese de luta de classe, como algumas pessoas à esquerda vem dizendo, nem pela resistência à concretização dos projetos malévolos dos marxistas culturais para dominar o mundo, como algumas pessoas mais à direita vem enfatizando.
Os argumentos principais das pessoas mais à esquerda é que os rolezinhos são uma manifestação política com o objetivo de ocupar os espaços que são negados aos pobres pela sociedade de consumo. O problema é que não há nenhuma bandeira ou sinal nesse sentido (...)
Os rolezinhos não vêm com faixas ou bandeiras. Não há crítica ao consumo, mas elogio às marcas. Essas pessoas já frequentam os shoppings da periferia, onde os rolezinhos acontecem, em grupos pequenos. É difícil ver reivindicação de espaço em um espaço que elas já frequentam. E isso também complica os argumentos da baderna, à direita. Não há crítica ao sistema. Apenas a vontade expressa em roupas de marcas em participar ativamente dele."

"O rolezinho não é uma questão simples, mas acho que podemos descartar facilmente as teses extremadas da esquerda e da direita porque elas não encontram nenhum respaldo da realidade."

"Quando tudo isso chega ao lado de cá da ponte, é filtrado pelas lentes do debate político histérico que tomou conta do país. Tudo parece virar apartheid ou comunismo, direito à livre circulação ou defesa da propriedade privada. Todo mundo tem certezas com base em quase nada. Os blogueiros de direita denunciam a conspiração dos funkeiros contra a civilização ocidental. Os blogueiros de esquerda veem apartheid das elites nos shoppings da periferia. Vira um festival livre de loucura, um campeonato nacional de associação livre, em que cada lado atribui um valor a esse encontro de lazer de acordo com a conjuntura política. O fenômeno deixa de ser analisado em si, e passa a ser analisado para servir de arma numa briga muito maior. Esses jovens de Itaquera, do Campo Limpo, de Interlagos, são desumanizados e se tornam aríetes de uma luta da qual eles não têm a menor ideia que estão participando."

"Os rolezinhos são o que são. E merecem estudos, debates e reflexões melhores do que vem recebendo até agora.
Porque se tem algo que os rolezinhos legam, com certeza, nesse mar de dúvidas, hipóteses e exageros, é que o nível do debate da ponte pra cá anda bem baixo."


Quem quiser ler todo o texto, segue o link: http://www.oene.com.br/rolezinho-e-desumanizacao-dos-pobres/

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Sampoemas


Para celebrar o aniversário de 460 anos de São Paulo que é comemorado amanhã, dia 25 de Janeiro, a Casa das Rosas realizará o tradicional evento 
“Sampoemas”, que celebra a grande metrópole com atrações durante todo o dia.

Para conhecer a programação, visite o site: http://www.casadasrosas.org.br/agenda/10-sampoemas-


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Poeminha sobre o tempo



"O despertador desperta, 

acorda com sono e medo; 

por que a noite é tão curta 
e fica tarde tão cedo?"


Millôr Fernandes, in "Pif-Paf"