quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Vambora

Por Caio Lafayette


De um lado do bar, ele. Apoiado no balcão, onde sempre costumava ficar. Ali, evitava, por vezes, fila. Criava intimidade com quem geralmente mais precisava na noite: o garçom. Tinha uma boa visão de todo o ambiente, mesmo que isso pouco acrescentasse. Só não estava só pois a cerveja sempre o acompanhava.

Do outro do bar, ela. E mais duas amigas. Uma, loira e falante. A outra, morena como ela. Ela, muita mais linda que a outra morena. Na mesa, bebidas típicas de mesas que só têm mulheres: Margarita, Smirnoff Ice e um copo vazio, que devia ter tequila há alguns minutos atrás.

Ele era amigo do guitarrista. Estudaram juntos na faculdade. Faziam parte do mesmo grupo de trabalhos universitários e ainda assim continuaram amigos. Ele seguiu a profissão que a formação supunha. O amigo guitarrista preferiu a guitarra.

Ela era amiga da loira falante que, por sua vez, era a ficante da noite do vocalista. Quase não foi naquela noite. Recém solteira, ainda não sabia aproveitar bem os prazeres da liberdade. Nem sabia se liberdade era sinônimo de sair à noite com as amigas. Mas foi. Mais pra acompanhar a amiga do que por convicção.

Ele a viu, do outro lado do bar.

Ela chamou o garçom, pediu mais uma tequila.

Ele pediu mais uma cerveja.

Ela olhou no celular. Mensagem? Não, queria saber que horas a banda entraria pra tocar.

Ele olhou no celular. Quase sem bateria. Celulares modernos são assim mesmo. Nunca dá pra contar.

Ela dividiu a tequila com as amigas. Sorriu. Ainda que aquilo não fosse a tal liberdade, pelo menos a noite estava divertida.

Ele continuou a observá-la.

Ela se levantou e começou a caminhar. Atravessou o bar. Em direção a ele?

Ele, então, observou mais. Saia preta um pouco acima dos joelhos. Blusinha branca. Salto alto. Ainda assim, continuava baixinha. Linda.

Ela passou por ele, sem notá-lo. Foi apenas ao banheiro.

Ele olhou pra mesa onde estavam as amigas. A loira continuava falando.

Ela voltou e parou no balcão. Pra pedir outra tequila? Queria saber que horas a banda começava a tocar.

- Eles costumam entrar só depois da meia-noite. – se adiantou ele, ao funcionário da casa.

Ela sorriu. Uma graça.

- Obrigada.

- Não vai pegar mais uma tequila?

Ela sorriu. Sem graça.

- Por quê?


- Curiosidade. – disse ele, percebendo que agora ela saberia que estava sendo observada. E isso era ruim?

Ela voltou pra mesa. Tomou a palavra da loira. Será que estava falando dele?

Ele chamou o garçom. Mandou entregar uma dose de tequila na mesa dela. Aproveitou e pediu outra cerveja.

Ela recebeu a dose de tequila. Olhou pra ele e sorriu, agradecida. Pediu uma caneta e escreveu algo em um guardanapo.

Ele leu: ‘vem sentar aqui com a gente’. Pensou duas vezes por pura teimosia. Na verdade, queria ir, claro. E foi.

Ela percebeu a movimentação dele. Sinalizou com a cabeça para as amigas.

Ele sentou. Se apresentou. Nada de diferente. Nome, idade, profissão, amigo do guitarrista.

Ela observou a loira tomar a palavra e se apresentar como ficante do vocalista.

Ele não deu muita bola pra loira. Sorriu gentilmente pra outra morena. Olhou com firmeza pra ela.

Ela perguntou sobre a banda. Sobre o amigo guitarrista. Sobre a profissão.

Ele perguntou o que ela fazia. Só estudava.

Ela olhou mais uma vez no celular. Ainda faltavam vinte e poucos minutos pra meia-noite.

Ele falou com ela. Ela falou com ele. A loira falava, pra ninguém. A outra morena não falava nada.

- Faz muita questão de ver a banda?

- Não. – respondeu ela, sem titubear.

- Vamos pra outro lugar? – perguntou ele, titubeando.

Ela topou.

Ele se surpreendeu.

Ela se levantou e se despediu das amigas.

Ele também se despediu.
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Atualmente, ele continua freqüentando os shows da banda do amigo guitarrista. Mas não fica mais apoiado no balcão. E tem outra companhia além da cerveja.

Ela, descobriu que sinônimo de liberdade é estar feliz . Virou amiga do guitarrista, também. E toma tequila em todos os shows da banda do novo amigo.

A amiga loira está ficando com o vocalista de outra banda. E a amiga morena não se sabe. Nunca mais atendeu ligação de nenhuma das duas.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Devo deixar de assistir a Woody Allen?

Eu não vou deixar!


Texto de: MICHAEL KEPP, 63, jornalista americano radicado no Brasil, é autor do livro "Tropeços nos Trópicos"

Tradução de PAULO MIGLIACCI



Devo deixar de assistir a Woody Allen?

Se esquadrinharmos a moralidade dos artistas, o que restará? Sou judeu, mas ouço Wagner, ainda que ele fosse antissemita virulento

O tribunal da opinião pública dos Estados Unidos, no geral, ignorou a mais interessante questão despertada pela reabertura do caso de suposto abuso sexual de Woody Allen contra a sua filha adotiva Dylan, quando ela tinha sete anos, em 1992.

Alimentado pela mídia, aquele tribunal parece mais fascinado pela questão de ele tê-la molestado mesmo, ainda que Allen jamais tenha sido formalmente acusado. O público preferiu colocá-lo em julgamento a fazer a pergunta mais interessante: se ele a molestou, será que eu deveria deixar de assistir aos seus filmes? Essa questão acarretaria um desafio moral e filosófico: é possível separar o artista de sua arte?

Todas essas questões ressurgiram duas semanas depois que Allen recebeu um Globo de Ouro especial pela sua obra (48 filmes), quando Dylan, 28, escreveu uma carta ao "New York Times" na qual pede a nós e a atores dos filmes dele que ouçam sua acusação antes de responder à pergunta: "Qual é seu filme de Woody Allen favorito?".

Com a pergunta intimidante, ela pretendia fazer com que as pessoas se sentissem culpadas ou ao menos pensassem antes de assistir aos filmes de alguém que ela alega tê-la molestado, antes de trabalhar neles ou antes de honrá-los.

A cantora Carly Simon reagiu à acusação afirmando que nunca mais assistiria a um filme de Woody Allen. Nicholas Kristof, colunista do "New York Times", questionou: "Será que o padrão para premiar alguém não deveria incluir honradez indisputável?".

Ou, para reformular a pergunta de Kristof, "não é impossível separar o artista de sua arte?". E minha resposta a isso é "não". Por quê? Porque se não erigirmos essa barreira ética, nos privaremos da capacidade da arte para iluminar as nossas vidas. Se esquadrinhássemos a moralidade de todos os artistas, que arte restaria para apreciarmos?

Eu sou judeu, mas ouço as óperas de Wagner, ainda que ele fosse um antissemita virulento, e adoro Sinatra, a despeito de suas conexões com a máfia. Admiro a pintura de Caravaggio, ainda que ele tenha assassinado um rival amoroso em uma tentativa de castrá-lo.

Por quê? Porque a música raramente é ideológica. E as pinturas de Caravaggio nada têm a ver com seu crime. Concordo com Oscar Wilde, segundo quem "todo retrato pintado com sentimento é um retrato do artista, e não do modelo".

Mas também acredito que quando acontece de o trabalho de um artista refletir seus preconceitos ou impropriedade moral, o que não ocorre nos exemplos citados anteriormente, é nossa obrigação moral atribuir-lhe um valor menor.

O exemplo clássico é o documentário "Triunfo da Vontade", de Leni Riefenstahl, que ao registrar um congresso nazista em 1934 usou técnicas cinematográficas inovadoras para glorificar Hitler. Sim, o filme é uma obra de arte, mas menor, porque também é propaganda nazista.

Os filmes de Allen não refletem seus preconceitos ou qualquer impropriedade moral. Eles apenas mostram suas neuroses. Personagens frágeis e comicamente ansiosas buscam a companhia umas das outras em um mundo confuso e de escolhas restritas. E as protagonistas cuja complexidade ele ilumina melhor são as mulheres. Meu mundo seria menor sem elas.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Em homenagem a Eduardo Coutinho

O cineasta Eduardo Coutinho faleceu ontem, aos 80 anos.

Em forma de homenagem, segue trailer de um de seus documentários, que está na minha lista dos 20 filmes favoritos: 'Jogo de cena'.