terça-feira, 26 de agosto de 2014

O livro das mulheres extraordinárias

Xico Sá, genial!

Não é de hoje que as mulheres que se desmancham pelo romantismo escancarado e exacerbado de Xico Sá. A nova obra do escritor é uma prova disso: 'O Livro das Mulheres Extraordinárias' traz 264 páginas nas quais faz odes a 127 moças diferentes, de Lygia Fagundes Telles a Gaby Amarantos, passando por musas do momento, como Isis Valverde e Fernanda Lima.

Segundo ele, o que o guiou nas escolhas dos nomes foi o desejo - e o tesão - que sente por cada uma das beldades.

"Todas as mulheres do livro me despertam uma forma de tesão. Nem sempre o tesão intelectual (risos). Toda essa diversidade só prova que não há padrão em matéria de mulher. O que vale é a lei do desejo."


UOL: Em Paraty, na Flip, você levou pequenas multidões para onde foi e muitas dessas pessoas eram mulheres. Acha que pode virar uma espécie de Wando das letras?

Xico Sá: Seria a glória em vida.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O Estado não é um prolongamento da família

Trechos extraídos do texto de mesmo nome, de Michel Zaidan, que pode ser lido na íntegra no endereço http://www.brasil247.com/+5m2yz


"Uma família, por mais ilustre e importante que ela julgue ser, não pode se arrogar decidir os rumos de uma campanha presidencial. Muito menos os parentes de uma família. O Estado republicano é maior do que uma oligarquia familiar, seja o nome que ela carregue."

"A condução do processo sucessório da chapa do PSB e o tratamento dado a esse processo pela mídia e as instituições competentes em legislação eleitoral no Brasil e Pernambuco não podem fechar os olhos para essa "ação entre familiares e amigos" que tem sido a questão sucessória do falecido candidato. Ou existe partido, instituição pública, com estatuto, comando e diretório, ou uma sociedade conjugal ou familiar se sobrepõe à organização partidária e decide como vai ser a disputa e eleitoral. O luto de ninguém autoriza tal aberração institucional."

"A escolha de uma militante pentecostal, vinculada por votos de fé à Igreja evangélica Assembléia de Deus, por decisão do irmão e da esposa do falecido, reduz à disputa sucessória a quem acredita em Deus, no criacionismo, na Bíblia, no casamento heterossexual etc."

"A esfera pública-eleitoral dessas próximas eleições não pode se reduzir a um debate pobre, fundamentalista, conservador como esse, enquanto os problemas econômicos, administrativos, sociais e de infra-estrutura aguardam pacientemente por uma solução."

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A morte de Campos em 3 comentários

Por Caio Lafayette



1 - A democracia brasileira, ainda jovem, pode gabar-se de já ter visto quase tudo. De impeachment ao falecimento de um de seus candidatos em plena campanha eleitoral. A morte de Eduardo Campos - e seus assessores - de forma trágica, marcará a história dessa e de outras eleições que estão por vir. Mais que um grande líder, o Brasil perdeu um símbolo da mudança, uma alternativa viável para desfazer a polaridade PT x PSDB. Acredito que o pernambucano seria Presidente da República. Não agora, mas seria.


2 - Difícil compreender as várias reações após a tragédia. Mesmo admitindo que somos todos seres humanos e, por essência, diferentes, não compreendo que haja a possibilidade de sentimentos distintos quando de um acidente fatal com 7 pessoas, pais de família, com uma vida inteira pela frente. Comentários e análises de ordem política em meio à procura dos corpos, insinuações de armação e apontamento de culpados. Não entendo, realmente. Todos deviam agradecer a Deus por estarem vivos e rezar pelas famílias atingidas pelo acidente.


3 - Marina Silva herda a vaga de Campos e inicia o processo com certo favoritismo. Imaginei, até, que por conta do desconhecimento real da história da candidata e da comoção natural em torno da recente tragédia, apareceria melhor na primeira pesquisa. Ela ainda representa a esperança de uma 3ª via forte, mas creio que por pouco tempo. Por ser competitiva, ao contrário de 2010, terá o seu histórico político, partidário e familiar exposto em rede nacional. Isso revelará seu conservadorismo, sua forma de fazer igual ou pior - ao contrário do que tenta vender. Arrisco dizer que terminará com menos do que os 19 milhões de votos de 2010. Chute. O PSB perdeu a chance de alçar quadros históricos, como Luiz Erundina, que, no mínimo, representariam melhor o anseio por mudança ao qual a chapa tenta se posicionar.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Agosto

"Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu sem o menor pudor, invente um. [...] Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados."

Caio F. Abreu

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Reflexo

Era 7h40m quando acendeu o visor do celular pela primeira vez na manhã. Exatamente o mesmo horário de todos os dias - faltavam cinco minutos para o despertador soar. Mas nenhum aparelho eletrônico tinha a programação melhor que o próprio corpo dela, que todo dia despertava apenas com o poder da mente, no mesmo exato horário.

- Você acha que estou velha? Eu só posso estar velha!

Estava se sentindo ótima naquele dia, com uma disposição animadora.

- Não me preocupar? Pra você é fácil falar...
- Não é você que diz que velhos que acordam cedo? Pois é. Acordei antes mesmo do despertador mais uma vez.

Olhou para o teto e em todo o redor, analisando o ambiente, satisfeita com o novo papel de parede vintage combinando com a mobília charmosamente envelhecida.
Sorriu. Era uma espécie de ritual inconsciente: despertar, analisar o ambiente e sorrir satisfatoriamente por ter se tornado a exata pessoa que sempre quis ser.

- Não entendo essa sua mania de mudar de opinião.
- Fui muita dura com você? Fui grossa? Ando muito ranzinza, não é mesmo? Deve ser sinal da idade.

Gastou vários minutos desfrutando de um relaxante banho, e mais alguns secando os cabelos. Depois, passou um creme no rosto, tão macio, pele lisa para uma mulher beirando os 40 anos.


- Você viu essas marcas em meu rosto? Como pode dizer que não estou velha?
- Você fala isso porque não conhece a Flávia.
- É, ela vem aqui em casa às vezes, lembra dela?
- Ai que ódio tenho da Flávia. 5 anos a mais que eu, 5 vezes menos rugas. Pode?
- Você está falando isso só pra eu não ficar cabisbaixa.
- Não adianta, eu não confio mais em você.

Hora de se vestir. Teria de ser uma roupa especial, combinando com o ótimo humor em que se encontrava naquele dia.

- Pra variar, não tenho roupa pra hoje.
- Que blazer? Aquele vermelho? É horrível!
- Gostava sim. Não posso mudar de opinião? Você muda toda hora.
- Sempre as mesmas desculpinhas.
- Tudo bem, chega de se fazer de vítima e me ajuda a pensar em uma roupa pra usar hoje.

Escolheu um blazer vermelho, saia preta pouco acima do joelho, e scarpin preto, salto respeitosamente alto, que a fazia sentir imponente, poderosa. Assim como o era. Vaidosa, porém não narcisista: aplicou maquiagem básica, modelou os cabelos, juntou os pertences críticos na bolsa e saiu da adorável casa que habitava sozinha.
Após estacionar o carro na vaga que já a esperava, adentrou o ambiente de trabalho. Todos que lá jaziam a saudaram com um carinho respeitoso. Era a chefe dali, mas as pessoas a viam como uma líder: Respeitada, ao invés de temida.

- Me preocupo tanto com a roupa e com as rugas pois, quando chego lá, fica todo mundo me olhando.
- Duvido.
- Eu os conheço melhor que você. Estou falando que duvido. Não tem respeito nenhum. É inveja mesmo. E puxa-saquismo muitas vezes. Sempre tem um querendo me dar uma rasteira.

Respondeu às saudações, se dirigindo para sua sala particular, o ambiente mais acolhedor do mundo para ela, após a própria casa. Uma parede de vidro planejada com a vista para o campo que se escondia nos fundos do galpão, contrastando com a cidade cinza do outro lado; luminárias que pendiam no teto em formatos diferentes; plantas em grandes vasos, textura de madeira nas paredes de concreto. A mesa era pequena - mesas grandes sempre significavam abrigo para muitos problemas. Preferira resumir tudo em um pequeno quadrado abrigando apenas um laptop, alguns vasos com flores e um pequeno rádio, sempre ligado, revelando seleções incríveis de MPB, seu gênero favorito. Trabalhar ouvindo música era como praia e Sol, combinação fundamental para fazer fluir qualquer coisa.

- Coloquei a parede de vidro porque li em uma revista que ajudava na integração da equipe. Técnica furada de RH.
- É verdade, me arrependo.
- Mas se eu mandar trocar agora todo mundo vai achar estranho.
- Viu, mudou de ideia de novo.
- Fala a verdade, vai... Acha que devo trocar?

Quando ela recostava em sua poltrona macia, fechava os olhos por alguns segundos, sentia toda a perfeição e harmonia do Universo, como se o mundo fosse perfeito, e ela fosse uma dádiva ambulante.

- Pra falar a verdade, não queria sair de casa hoje.
- Claro que não é só pra ficar conversando com você.
- Estou brincando. Você aí no espelho é minha melhor amiga, você sabe.
- Que Flávia, que nada! Só você me entende.
- Tenho que ir agora, tudo bem?
- Eu também não queria. Mas estou atrasada. E já basta o tanto que me encaram quando chego, não quero dar mais motivos.
- Até mais.

Antes de se jogar em mais um dia de trabalho.