terça-feira, 9 de setembro de 2014

Um domingo qualquer

Texto de MARILIA NEUSTEIN, publicado em seu blog 'Sem Retoques' - http://blogs.estadao.com.br/sem-retoques/

Quando eu era adolescente, detestava os domingos. Em especial, os fins de tarde dos domingos. A razão não era porque a segunda-feira se aproximava e eu teria de me preparar para a escola. O que não gostava era de lidar com a desaceleração. Diminuir a marcha, entrar em casa e ter de ir me preparando para “o fim do final de semana”. Porque, se pararmos para pensar, o domingo é um pequeno divórcio na semana. Apesar de ser oficialmente o começo, em nosso inconsciente coletivo é um fim. Além do que, depois de curtir a folga, a balada e o descanso… os programas de televisão me deprimiam, dando espaço para uma melancolia gratuita que só ia embora no decorrer da semana.



Com a idade, isso mudou. Parece até que o domingo é um dia feito só para os grandes. Aquela melancolia da adolescência se dissolveu completamente com a idade adulta. As ruas vazias e aquele ventinho de silêncio deram espaço para uma grande música gostosa. A música de domingo. Cheia de graça, essa tal domingueira. As manhãs, com suas bicicletas e seus cachorros. Almoços de família. Caipirinha com os amigos nos bares. Jogos de futebol. E “o fim”, de repente, tira essa tristeza estranha e inexplicável do caminho, dando espaço para um maravilhoso sentimento chamado calma. O fim do domingo é, para muitos, o momento de se preparar para a semana que começa. Devagarinho, mexer na geladeira, ver o que falta. Pensar na roupa de segunda-feira. Pegar um cineminha no final do dia, navegar sem objetivo na internet. Ler mais do que um capítulo de um livro. São coisas que, com muita sorte, acalmam. E calma é um sentimento bom, redondo, lunar. Domingo é isso. Não é o dia de decidir, de resolver, mas de desfrutar. O domingo não tem preconceito: aceita a preguiça de braços abertos. É o dia do sono, da leitura do jornal, do ócio. Do bacalhau da avó, de suco de tangerina, de siesta. É dia de aproveitar os sobrinhos. E é, acima de tudo, o dia do sofá. Convenhamos, o sofá é o melhor amigo do domingo. Ele abraça, acolhe, agrega. Começa na hora do almoço e só termina com o cair da noitinha.

Okay, sabemos que nem tudo é uma musiquinha suave. Lógico que, no fim do dia, muita gente tem de planejar coisas chatas, olhar a agenda, fazer cara feia para os compromissos, mas também – fazendo a pessoa que está de bem com a vida – é a chance de começar uma semana com o pé direito. E, no meio de tudo isso, ver, sem culpa, um pouco de bobagem na televisão.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Sem rancor

Texto de ELENA LANDAU, publicado na Folha de São Paulo


Há pouco mais de 20 anos o Brasil convivia com uma hiperinflação e o impeachment de um presidente. Era difícil ser otimista. Passadas duas décadas, o país é outro. O divisor de águas foi o Plano Real. Sem ele, e a estabilização econômica que se seguiu, as políticas de inclusão social não teriam terreno fértil para prosperarem nos anos seguintes.

A continuidade que Lula deu às políticas do FHC foi fundamental para que o país hoje possa se orgulhar dos ganhos na área social e sonhar com um salto de qualidade nas políticas públicas.

Infelizmente nos anos mais recentes, os erros na condução da economia e o isolacionismo da presidente estão colocando em risco as melhorias obtidas tão duramente. Dilma é nossa Alice, no País das Maravilhas. Se recusa a reconhecer os erros do presente, abusa da mentira nas estatísticas e inviabiliza um debate sobre o futuro.

Sua campanha tem sido marcada por uma obsessão em disputar legados e desconstruir os avanços do governo tucano. Com isso, tenta aprisionar e limitar as propostas da oposição a uma mera discussão numérica: quilômetros, leitos, creches etc.

O apego a uma agenda eleitoral populista e ultrapassada me surpreende, especialmente após os movimentos de 2013. Até parece que foi só por causa de 20 centavos. Os grandes temas que afligem o eleitor --saúde, educação, segurança, mobilidade-- não vêm encontrando muito espaço. Melhor seria uma discussão menos quantitativa e mais qualitativa. Não basta universalizar serviços, mas garantir igualdade no acesso e boa prestação.

A agenda que o candidato do PV colocou no debate da Band repercutiu bem. Trouxe temas sempre evitados: a reforma política e o aborto sob perspectiva da saúde pública.

Por enquanto, o novo está simbolizado em Marina, apesar da candidata participar da política há décadas. O que é bom. Ela vem surfando na onda na terceira via aproveitando o cansaço de todos com o Fla-Flu eleitoral que vivemos. Pode conseguir deslocar o foco da campanha e melhorar o nível das discussões.

A polarização partidária não é o problema, mas, sim, o discurso raivoso que o PT tem imposto ao debate político nos últimos anos.

O novo para mim é a aceitação do diferente. Escrevo como eleitora, não sou analista política e meu voto não é segredo. Sou filiada ao PSDB, mas não só por isso acho Aécio o melhor candidato. Tem meu voto pelo programa que apresenta, sua capacidade de gestão e sua equipe. E por falar do futuro de forma concreta, sem platitudes e escapismos.

O atual protagonismo de Marina é muito bem-vindo. Ela acaba de lançar seu programa de governo. Nas próximas semanas teremos a oportunidade de discutir ideias e sua implementação. Sem rancor.